Archive for Junho, 2011

de Portugal e dos Algarves…

Tenho com o Algarve estival uma relação estranha. Paixão-ódio, amor-irritação, admiração-desdém, algo assim, algo que nasce ao atravessar as áridas serras, quase desumanas em que pequenas casas espreitam por entre a vegetação rasteira, algo que cresce ao descer em direcção a esse Atlântico pré-mediterrânico, por entre  desmandos de toda a sorte, por entre depressões urbanísticas. E sempre a vegetação irritante, rasteira e seca, e sempre o ar, quente e árabe. E com que rapidez se desce, com que rapidez se deseja a Ria, Formosa e Algarvia, essa Ria, dos pernilongos e pelicanos, das conquilhas e do lingueirão. Dos dias tórridos e lânguidos fins-de-tarde. Das sardinhas, do Costa da Fábrica e da Cacela Velha. Da irresistível Albufeira, da velha cidadela de Faro. De Sagres mítica. Dos Dom Rodrigos e da Amêndoa Amarga. Do São João de Tavira, do chão juncado de hortelã, do aromático ar da noite quente.
É assim o meu Algarve.
Ora bolas sem creme, ora conquilhas com alho…

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de Camões

Começou por ser feriado municipal de Lisboa, a propósito da morte de Camões. Foi em pleno Estado Novo que ganhou o estatuto de feriado nacional, ganhando o pomposo epíteto de Dia da Raça. Da Portuguesa, seja lá o que isso é. Após o 25 de Abril de 74 é promovido a essa amálgama que é o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Por mim dispensava-o. Dispensava os anacrónicos desfiles, dispensava condecorações vazias. Dispensava a exaltação nacional, a celebração da grandiosa gesta Portuguesa, a eterna evocação da epopeia dos descobrimentos. E, celebrássemos nós o dia da morte de  todos os poetas mais ou menos geniais, e acabaríamos o ano com menos um punhado de dias de trabalho. Por mim limito-me a evocar Luis Vaz de Camões no dia da sua morte.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já foi coberto de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

  


crisis, what crisis?

É assim, primeiro o deslumbramento com a cena, com a oportunidade, e a certeza de que dali sairão algumas fotos boas, para mostrar, para postar, para o álbum. Depois aquele ângulo não aparece, a luz queima, há sempre algo a mais. E o amuo. Já nada de jeito sairá dali. A má vontade com que se olha o resultado, decepcionante,  no computador. Esquece-se o falhanço, esquecem-se as fotos, evitam-se os thumbnails. Passam os anos, e subitamente uma crise, a máquina, fiel companheira, abandonada num canto, nada sai bem, o melhor é parar. Olham-se então fotografias antigas, procuram-se novas maneiras de as olhar, agora que, quer saibamos ou não, amadurecemos um pouco mais, agora que, quer queiramos ou não, precisamos de um novo alento. E, por magia, descobrem-se novos encantos em imagens rejeitadas, um muro que não devia ali estar, mas cuja textura dá profundidade à alvura da parede, um sol que, sendo incómodo, projecta um qualquer pormenor, resgatando-o ao marasmo. Trata-se, edita-se e mostra-se. Eis finalmente o fim da breve crise…