o elevador IV

Quinze anos haviam passado desde o último almoço a sós, dois desde que a vira pela última vez. Nesse interregno foi a correspondência o que os manteve, ora frenética ora tranquila, ora de circunstância ora intimista. Como foi a correspondência, no fundo, que pôs fim a esse interregno, que desaguou naquele encontro.  Esperava-a, dentro do carro, olhando ao longe para o elevador que tardava em descer, esse mesmo elevador, outrora fiel depositário de planos passados. Distraiu-se com o metro que, ligeiro, desceu em direcção à velha Escola onde se cruzaram por acaso em séculos passados, transportando a sua memória até esses tempos de primaveras e encontros, de passeios e aulas de matemática, de jogos de futebol e cigarros avulsos. Tempos leves, dias cheios, conversa solta, paixões novas. Olhava absorto para o retrovisor, vagueando entre recordações, quando foi resgatado pelo súbito abrir da porta. Era ela, e então foram horas, que aconteceram feitas breves instantes, que terminaram naquele abraço com que se despediram, no parque de estacionamento do shopping onde a deixaria. Foi com esse abraço que deixaram para trás o almoço tranquilo, à vista do agitado Atlântico, foi esse abraço, perfumado de oregãos e coentros, tempero desse reencontro depois de anos e anos de distância. E foi desse abraço breve que lhe nasceu um sorriso que não mais o abandonaria. Foi desse abraço que nasceram todos os que se lhe seguiriam, os que, encerrando os encontros de hoje, vão abrindo os de amanhã…

anteriores: o elevador I, o elevador III

4 responses

  1. hmmm, delícia de espera, de encontro, de tempero e de vida! o que mais há pra se fazer sobre esta terra?

    Abril 30, 2011 às 11:35 pm

  2. Ana

    Homem, tu devias escrever e publicar!
    Mas idependente do que escreveste ficou-me a tua última frase, entendida num contexto mais amplo do que o do texto:

    “Foi desse abraço que nasceram todos os que se lhe seguiriam, os que, encerrando os encontros de hoje, vão abrindo os de amanhã…”

    Belissima!
    O abraço é aquele gesto capaz de abrir portas entre os seres humanos e encerrar encontros ou desavenças. Deve ser por isso que gosto tanto do gesto e da palavra!

    Grande Abraço

    Ana

    Maio 25, 2011 às 10:49 am

    • Concordo em absoluto, Ana.
      O abraço é provavelmente o gesto mais significativo e generoso que conheço…

      Maio 28, 2011 às 11:02 am

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