Archive for Abril, 2011

o elevador IV

Quinze anos haviam passado desde o último almoço a sós, dois desde que a vira pela última vez. Nesse interregno foi a correspondência o que os manteve, ora frenética ora tranquila, ora de circunstância ora intimista. Como foi a correspondência, no fundo, que pôs fim a esse interregno, que desaguou naquele encontro.  Esperava-a, dentro do carro, olhando ao longe para o elevador que tardava em descer, esse mesmo elevador, outrora fiel depositário de planos passados. Distraiu-se com o metro que, ligeiro, desceu em direcção à velha Escola onde se cruzaram por acaso em séculos passados, transportando a sua memória até esses tempos de primaveras e encontros, de passeios e aulas de matemática, de jogos de futebol e cigarros avulsos. Tempos leves, dias cheios, conversa solta, paixões novas. Olhava absorto para o retrovisor, vagueando entre recordações, quando foi resgatado pelo súbito abrir da porta. Era ela, e então foram horas, que aconteceram feitas breves instantes, que terminaram naquele abraço com que se despediram, no parque de estacionamento do shopping onde a deixaria. Foi com esse abraço que deixaram para trás o almoço tranquilo, à vista do agitado Atlântico, foi esse abraço, perfumado de oregãos e coentros, tempero desse reencontro depois de anos e anos de distância. E foi desse abraço breve que lhe nasceu um sorriso que não mais o abandonaria. Foi desse abraço que nasceram todos os que se lhe seguiriam, os que, encerrando os encontros de hoje, vão abrindo os de amanhã…

anteriores: o elevador I, o elevador III


Páscoa

A Páscoa era, mais do que o Natal, tempo de regresso no Caramulo. A decadência dos Sanatórios levara muitos a procurar sorte fora da Serra, Porto, Lisboa ou outras paragens mais distantes. Mas este era o tempo do regresso, em que se reencontravam primos distantes, velhos amigos, era este o Domingo em que as ruas do Povo, o núcleo original das Paredes do Guardão, se enchiam, era este o Domingo em que se encontrava o Compasso em cada esquina. Em que o Abade saía com os seus melhores paramentos, em que entrava em casa de todos os paroquianos ansiosos pela visita Pascal. Na nossa casa entrava já o Sol tinha desaparecido atrás do Caramulinho, já noitinha, já cansado da longa jornada. Nem por isso deixava de dizer umas palavras simpáticas, alusivas ao dia da Ressurreição de Cristo. Naquele ano referiu-se à sapiência divina, ao fazer coincidir a Páscoa com a Primavera, “tempo de renascimento”. Palavras a que todos acenaram, certos de que era de facto prova de harmonia divina. Todos menos a Ana que, estupefacta, lembrava o Outono que então dourava a Páscoa em Minas…


aqui

É aqui que regresso, é daqui que sou. Sim, nasci longe, nasci Tripeiro, e sim, é já mais o tempo em que vivi longe daqui do que o que passei nesta Serra. E contudo é aqui que me sinto em casa, é aqui que me sinto reconfortado. Foi aqui que pela primeira vez olhei derretido para ela, a menina mais bonita de toda a escola, foi aqui que, tendo 6 ou 7 anos peguei na sua mão no recreio. Foi aqui que o Sr Aníbal me vendeu chicletes Gorila, gelados Olá e cerveja Sagres. Foi por aqui que joguei marcantes jogos de futebol, fosse no Lusitano, no Parque, em frente ao Cemitério ou nos lameiros da Longra. Foi aqui que, às escondidas, fumei o meu primeiro Português Suave (long size) com o Chico. Foi aqui que selei uma promessa de eternidade com um anel de luar. Foi aqui que tantas vezes me chamaram Fernando, como chamam hoje Pedro ao Francisco. É daqui que eu sou, e é aqui que, mesmo sendo um pouco de outras paragens, renasço a cada Páscoa…


pequenas coisas…

Animava-se com pequenas coisas, via eloquência em gestos insignificantes. Sorria com palavras soltas, que ordenava meticulosamente em sonetos perfeitos. Estarrecia com os breves encontros, que revivia até viver neles eternas promessas. Alimentava-se de pequenas lembranças, sonhando nelas imensos futuros. Mas depois o futuro era isso mesmo, breve promessa, pequenos gesto, palavra solta. Era o futuro que era de ser, era esse o futuro que queria. E então bastava-lhe o muito que encontrava no pouco, no breve, no eternamente efémero. E então sorria, ao ler mais uma palavra solta. Ao vislumbrar um outro gesto. Ao antever o próximo encontro…


certezas e surpresas de uma ida ao Dragão

Ao Dragão tinha ido apenas por motivos profissionais, para ver o sistema de iluminação. Experiência única, que me permitiu deambular pelas galerias técnicas e passear bem lá em cima, nas esteiras dos projectores. Voltei hoje, a convite de um amigo, para assistir ao Porto-Sporting. Entrei, confesso, com um punhado de ideias pré-concebidas, essencialmente desagradáveis. A maior parte delas, no entanto, foram caindo ao longo do jogo, porque foi essencialmente agradável essa ida a território inimigo. Começou a desenhar-se agradável, quando surpreendido constatei a ausência de cânticos anti-Benfiquistas ou quando me admirei com o sentido de humor dos vizinhos Portistas da bancada, mesmo sabendo-me vermelho por baixo da camisola do Atlético Mineiro. Do relvado vieram sobretudo confirmações. Sim, já sabia que o Postiga é fraco e confirmei-o ali. Que o Hulk está longe, muito longe de ser um grande jogador, que o Evaldo é uma nulidade, que o Djaló é um imenso nada. Surpreendeu-me, no entanto, o Rui Patrício, que merece a baliza da Selecção, surpreendeu-me o Vukcevic, mas caí aos pés de Falcão, a quem não regateei um forte aplauso. Como não regateio, agora, um discreto elogio ao Dragão desta noite. A continuar assim, cá voltarei, assim surja novo convite…


altos e baixos

Ainda é assim o meu futebol, de altos e baixos, de vergonha e emoção separados por dias,  horas ou minutos. Minutos que separam um esmagador 3-0 de mais um frango de Roberto ou dias que separam a vergonha do último domingo do jogo de ontem. Dias que medeiam o injustificado despeito pela perda do campeonato e um estádio cheio, a embalar a equipa para um jogo soberbo. Porque foi disso, no fundo, do que se tratou, de um jogo soberbo de Aimar, Coentrão, Saviola mas sobretudo de Sálvio. Cheio de falhas, é certo, mas servido de futebol esteticamente perfeito, temperado com emoção a gosto. É esse o meu futebol, como é esse o futebol da Sofia, o futebol que “prefere o jogo de ataque desvairado, mas com grandes toques de classe do Benfica, aos passes ao milímetro até à morte do Barcelona”. É esse o meu futebol, como é esse o futebol do Joel, onde se “vive a mais delirante euforia e a mais miserável angústia”. É de euforia, a hora. Que assim seja até à próxima quinta-feira, quando finalmente Veloso será vingado. Que assim continue até Dublin…


de regresso


Eis-me de volta ao futebol que realmente interessa, ao futebol em que ninguém se encolhe, mas em que ninguém magoa ninguém, ao futebol matreiro, sim, mas em que a metreirice é sempre acompanhada por um sorriso, ao futebol onde a única luz que se apaga é a do Sol, ao pôr-se lá em baixo, na Praia de Matosinhos, onde, se alguém termina molhado é do suor do esforço que jamais se mede, jamais se poupa. Eis-me de volta ao futebol, ao futebol que vale realmente a pena…


hoje não

Eis outro daqueles dias de futebol. De nervoso miudinho, de excitação mal contida, de ansiedade. Vivemos para estes dias, para dias de alegrias incontidas, para noites de tristeza miserável. Não será assim, hoje. Dificilmente haverá alegria incontida, hoje. E a tristeza, a havê-la, será apenas a esperada. Sim, podemos adiar a festa Portista, mas é apenas isso a que podemos ambicionar, sim, podemos vencer o invencível Porto, mas dificilmente vingaremos os 5-0. O Porto será campeão, e será, apesar de tudo, um justo campeão. Porque será um justo campeão quem chega a esta fase com apenas dois empates. Será um justo campeão, sim. Mas não hoje.


Piedade

Não resitiu a desviar-se do percurso certo para rever os velhos carreiros do passado, não resistiu naquela tarde de inverno a trocar o borralho pelo frio chão dos caminhos velhos, não resistiu porque não era de resistir, porque a tentação de voltar ao passado se lhe afigurou enorme, porque a saudade se agigantou naquele fim-de-tarde escuro e invernoso. Não desistiu naquela tarde de vento da serra, quando do alto dos seus oitenta-e-muitos anos se viu caída e erma, quando do fundo da corga se achou incapaz de levantar o seu peso, quando, de trás das suas cataratas, não conseguiu vislumbrar saída. Não desistiu ela porque não desistiu dela um gato vadio, vindo sabe-se lá de onde, insistente no miar, reclamando para si o direito exclusivo de vaguear àquelas horas de gatos pardos. Não desistiu porque não era de desistir. Não desistiu nunca, até ser chegado aquele dia das mentiras de 2006. Não resistiu, logo ela que não era de desistir…