São Miguel

5 anos depois regressei aos Açores, regressei a São Miguel, à ilha onde tinha estado em trabalho e que apenas pude ver por breves horas, suficientes, no entanto, para deixar a certeza de que voltaria a aterrar em Ponta Delgada.
E foi assim que voltei, na noite de sexta-feira. No sábado, Ponta Delgada, capital da ilha e do arquipélago. Decepção moderada, pela segunda vez. Falta-lhe o tempo, o espírito, o ar colonial de Vila Franca do Campo e, imagino, de Angra do Heroísmo. Salvou-se o bife do Aliança, divino, acompanhado pela surpreendente Kima maracujá…
Tempo de rumar, por entre chuviscos, abertas e nevoeiro para a inevitável Lagoa das Sete Cidades que apenas consegui ver a espaços. Suficiente para deixar no ar a suspeita de que o trono da Lagoa do Fogo estará a salvo.
Finalmente a Ponta da Ferraria, imponente no seu preto vulcânico, fazendo o Atlântico aparecer majestosamente azul a seus pés.
Segundo dia, tempo de subir à Lagoa do Fogo, deslumbrante e misteriosa, segura de ser a mais bela da ilha, certa de que depois dela será sempre a descer. Durou pouco a descida, durou até à Caldeira Velha que surge com suas águas quentes por entre a vegetação verde e luxuriante, que julgamos possível apenas noutras latitudes. Depois tempo de retemperar forças em Porto Formoso, com o inevitável chá Gorreana, representando a capacidade de sobrevivência e de adaptação dos Açorianos depois de uma catástrofe. Desta feita a doença que no Sec. XIX dizimou os prósperos laranjais Micaelenses, forçando a procura de alternativas. Recuperadas as forças, tempo para retomar uma grata recordação da minha primeira visita à ilha, tempo para o almoço em Santana, na Associação Agrícola de São Miguel, tempo para um bife de lombo com molho de queijo da ilha, perfeito, fazendo justiça ao anunciado lema “do prado para a mesa”…
Para a digestão nada como as águas das fumarolas das Furnas, brotando sulfurosas do chão, debaixo dos nossos pés, canalizadas para fontes onde se podem provar, ora azedas, ora férreas, mas sempre malcheirosas, sempre estranhas ao paladar. Não consegui repetir desta feita a maçaroca de milho cozida em plena fumarola com que me delicei há 5 anos. Paragem final na misteriosa lagoa das Furnas, com o seu campo de fumarolas onde se faz o famoso cozido, enterrado no chão quente e borbulhante.
Terceiro dia, segunda oportunidade para a Lagoa das Sete Cidades se redimir, mostrando-se brilhante como nos postais ilustrados da ilha. Em vão, pois o melhor que consegui foi um rápido vislumbre desde o magnífico Pico da Lagoa do Canário, antes do nevoeiro devorar a paisagem. Depois rumo ao Nordeste, com magníficas vistas sobre o Atlântico, culminando com a vista do Farol do Arnel. Antes, a surpresa da cachoeira da majestosa Ribeira dos Caldeirões, depois, a magnífica vista sobre o vale verdejante que termina na Povoação, que termina no Atlântico, como quase tudo na ilha…
Finalmente o quarto dia, dia de Entrudo, dia em que Ponta Delgada e a sua guerra das Limas é de evitar, dia que parecia condenado ao tédio. Nada mais falso, nada mais enganador. E a certeza de que assim seria, começou quando avistámos a casa que Thomas Hickling, vice-cônsul dos Estados Unidos para as ilhas de São Miguel e Santa Maria construiu nas furnas, com um enorme lago de águas castanhas e quentes a seus pés. Depois o demorado mergulho nessa água, que o frio do ar e o vento forte faziam paradisíacas e irresistíveis, seguido do passeio pelos jardins magníficos do agora chamado Parque de Terra Nostra. Depois disso o último regresso a Ponta Delgada, não sem antes ceder a uma última tentação, a um último desvio, em direcção à Lagoa do Congro. Em boa hora o fiz, pois dali veio a surpresa da viagem, revelada aos poucos, enquanto o caminho serpenteava por entre a vegetação densa e húmida, enquanto descia a encosta em direcção à água que se via apenas a espaços, que ficava mais perto à medida em que a luz se escondia entre a folhagem. Finalmente a prometida lagoa, deixando-se ver apenas com os pés molhados, cercada de paredes verticais e densamente arborizadas, ocupando o lugar que outrora foi cratera de vulcão. Por fim a subida, o regresso, longo e vagaroso para recuperar o fôlego perdido, para saborear a vista. Para fechar em grande esta visita. Para abrir o apetite para a próxima…
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7 responses

  1. hmmm, relato de viagem pode ser um pé no saco, mas vc faz isso magistralmente, quero ver mais fotos, cadê?

    Março 11, 2011 às 3:58 am

    • Concordo com você, Andrea, por isso evito ao máximo publicar relatos de viagem. Só que há viagens que merecem o risco…
      As fotos estou editando, a seu tempo você as verá…
      Bj

      Março 11, 2011 às 7:41 pm

  2. Sérgio

    Bom dia caro amigo, com este teu relato só me relembras que eu tenho andado a adiar uma viagem com a familia para um local magnifico, mas vou sempre adiando por esta e aquela razão.
    Fantástica a forma como descreves a viagem.
    Abraço Sérgio

    Março 11, 2011 às 8:45 am

    • Sérgio, não percas, a sério…
      Abraço

      Março 11, 2011 às 7:42 pm

  3. Ai, adorei o relato de viagem, vi várias fotos lá no Flickr da Ana, que viagem, hein?! Mais um lugar pra eu colocar na minha lista, aiaiai…
    E nós aqui em BH debaixo da maior chuva!!!
    bjk

    Março 12, 2011 às 12:32 am

    • Chuva foi coisa que não faltou na viagem, também, Mônica…
      Mas sim, os Açores merecem a visita. Pena que são 9 ilhas e esta foi apenas a primeira.
      Mal posso esperar pela próxima viagem, que será à Terceira…

      Março 12, 2011 às 3:05 pm

  4. Adorei o relato e as fotos! Fiquei aguada com o bife…
    Bjs, Bê

    Março 14, 2011 às 4:03 am

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