Archive for Março, 2011

estranhos domingos

Domingos estranhos, estes em que nos falta o futebol, Domingos estranhos, estes em que a hora muda, em que 60 minutos se perdem antes do amanhecer, Domingos à toa, estes em que perdidos buscamos algum rumo, contido num livro, num filme, numa qualquer crónica de jornal. Nada. No fim apenas a recordação da noite de ontem, do virtuosismo de Brad Mehldau, da voz perfeita de Anne Sofie, não, perfeita é provavelmente pouco para descrever aquela voz divina que, enchendo toda a sala Suggia, leva paixão a todos os cantos, a todos os presentes. No fim apenas a as palavras de Sara Teasdale , no fim apenas a companhia que, dando sentido a toda uma vida, dá também a um Domingo estranho…

 


Nuno Gomes

Há quem ponha o coração em campo, há quem jogue com paixão, com amor à camisola, quem jogue todos os minutos como se fossem os últimos. Quem levante um estádio quando pisa o campo, quem leva as bancadas ao delírio quando marca. E marca sempre, por poucos minutos que jogue, marca sempre, por muito que lhe decretem o fim, marca sempre, por mais que duvidem do seu valor. E tem indubitavelmente valor aquele que é um avançado incontornável no futebol Português, tem grande valor aquele que é uma figura imprescindível no Benfica. Foi-o no passado, é-o hoje, como ficou claro na Mata Real onde lhe bastaram 5 minutos para marcar, onde lhe sobraram outros 10 para matar o jogo. E sê-lo-à num futuro mais ou menos próximo. Fora do campo, mas dentro do coração Benfiquista… 


Casa Lindo

À Casa Lindo quase tudo se perdoa, perdoa-se a demora da cozinha, perdoam-se os pequenos lapsos do serviço. A lentidão perdoa-a o Douro, brilhante e tranquilo, o Douro que os Rabelos tantas vezes sulcaram, o Douro agora apaziguado pelas barragens, com Crestuma quase à vista. O esquecimento, quase imperdoável, dessa iguaria dos deuses que é a açorda de lampreia, perdoa-o o Sol, quente e sincero, agora que deixou para trás o ar enganador do inverno. E por fim tudo perdoa o perfeito arroz de lampreia, acompanhado por um alvarinho vindo do Minho, crescido com os pés nesse rio onde se venera 0 feio ciclóstomo. Tudo perdoa a companhia, que transforma séculos em instantes. Não perdoa a primavera, que fará desaparecer a Lampreia do prato. Mas sobrarão os filetes de polvo com arroz-do-mesmo, esses que fazem tremer o Aleixo. Por eles voltarei a sentar-me debaixo desta videira que se adivinha verde, por eles, por este Sol, por este Rio. Pela companhia, E por essa cozinha a quem tudo se perdoa…


pessoal e transmissível

objectos pessoais carregam uma história, muito mais do que uma história, generosidade é o que carregam, guardados ou ainda mais quando partilhados, discreta ou publicamente, carregando arte, ou uma história, uma lembrança ou um presente, trazidos pelo carteiro, pelo gmail, levando parte de nós, muito de nós, trazendo de volta um sorriso, um obrigado ou uma lágrima, silêncio até,objectos nossos, para nós, para outros, de outros, sempre pessoais mas sobretudo transmissíveis…

(sketch by C.)

Nuno

Faltando-me irremediavelmente alguém, olho para as marcas que restam. Não, não me refiro a um nome dado a uma sala, rua ou viela, refiro-me às marcas que perduram nos outros, nos que com ele se cruzaram, nos que ele mudou. E mudou muitos, com a sua teimosia, firmeza, e frontalidade, nem sempre fácil, nem sempre consensual, mas sempre de peito-aberto, sempre olhando nos olhos. Por isso deixou a sua marca em tantos, fartos de parcimónia e de falinhas-mansas. Por isso é lembrado não apenas hoje, mas ao longo dos dias, por essa vida fora…


São Miguel

5 anos depois regressei aos Açores, regressei a São Miguel, à ilha onde tinha estado em trabalho e que apenas pude ver por breves horas, suficientes, no entanto, para deixar a certeza de que voltaria a aterrar em Ponta Delgada.
E foi assim que voltei, na noite de sexta-feira. No sábado, Ponta Delgada, capital da ilha e do arquipélago. Decepção moderada, pela segunda vez. Falta-lhe o tempo, o espírito, o ar colonial de Vila Franca do Campo e, imagino, de Angra do Heroísmo. Salvou-se o bife do Aliança, divino, acompanhado pela surpreendente Kima maracujá…
Tempo de rumar, por entre chuviscos, abertas e nevoeiro para a inevitável Lagoa das Sete Cidades que apenas consegui ver a espaços. Suficiente para deixar no ar a suspeita de que o trono da Lagoa do Fogo estará a salvo.
Finalmente a Ponta da Ferraria, imponente no seu preto vulcânico, fazendo o Atlântico aparecer majestosamente azul a seus pés.
Segundo dia, tempo de subir à Lagoa do Fogo, deslumbrante e misteriosa, segura de ser a mais bela da ilha, certa de que depois dela será sempre a descer. Durou pouco a descida, durou até à Caldeira Velha que surge com suas águas quentes por entre a vegetação verde e luxuriante, que julgamos possível apenas noutras latitudes. Depois tempo de retemperar forças em Porto Formoso, com o inevitável chá Gorreana, representando a capacidade de sobrevivência e de adaptação dos Açorianos depois de uma catástrofe. Desta feita a doença que no Sec. XIX dizimou os prósperos laranjais Micaelenses, forçando a procura de alternativas. Recuperadas as forças, tempo para retomar uma grata recordação da minha primeira visita à ilha, tempo para o almoço em Santana, na Associação Agrícola de São Miguel, tempo para um bife de lombo com molho de queijo da ilha, perfeito, fazendo justiça ao anunciado lema “do prado para a mesa”…
Para a digestão nada como as águas das fumarolas das Furnas, brotando sulfurosas do chão, debaixo dos nossos pés, canalizadas para fontes onde se podem provar, ora azedas, ora férreas, mas sempre malcheirosas, sempre estranhas ao paladar. Não consegui repetir desta feita a maçaroca de milho cozida em plena fumarola com que me delicei há 5 anos. Paragem final na misteriosa lagoa das Furnas, com o seu campo de fumarolas onde se faz o famoso cozido, enterrado no chão quente e borbulhante.
Terceiro dia, segunda oportunidade para a Lagoa das Sete Cidades se redimir, mostrando-se brilhante como nos postais ilustrados da ilha. Em vão, pois o melhor que consegui foi um rápido vislumbre desde o magnífico Pico da Lagoa do Canário, antes do nevoeiro devorar a paisagem. Depois rumo ao Nordeste, com magníficas vistas sobre o Atlântico, culminando com a vista do Farol do Arnel. Antes, a surpresa da cachoeira da majestosa Ribeira dos Caldeirões, depois, a magnífica vista sobre o vale verdejante que termina na Povoação, que termina no Atlântico, como quase tudo na ilha…
Finalmente o quarto dia, dia de Entrudo, dia em que Ponta Delgada e a sua guerra das Limas é de evitar, dia que parecia condenado ao tédio. Nada mais falso, nada mais enganador. E a certeza de que assim seria, começou quando avistámos a casa que Thomas Hickling, vice-cônsul dos Estados Unidos para as ilhas de São Miguel e Santa Maria construiu nas furnas, com um enorme lago de águas castanhas e quentes a seus pés. Depois o demorado mergulho nessa água, que o frio do ar e o vento forte faziam paradisíacas e irresistíveis, seguido do passeio pelos jardins magníficos do agora chamado Parque de Terra Nostra. Depois disso o último regresso a Ponta Delgada, não sem antes ceder a uma última tentação, a um último desvio, em direcção à Lagoa do Congro. Em boa hora o fiz, pois dali veio a surpresa da viagem, revelada aos poucos, enquanto o caminho serpenteava por entre a vegetação densa e húmida, enquanto descia a encosta em direcção à água que se via apenas a espaços, que ficava mais perto à medida em que a luz se escondia entre a folhagem. Finalmente a prometida lagoa, deixando-se ver apenas com os pés molhados, cercada de paredes verticais e densamente arborizadas, ocupando o lugar que outrora foi cratera de vulcão. Por fim a subida, o regresso, longo e vagaroso para recuperar o fôlego perdido, para saborear a vista. Para fechar em grande esta visita. Para abrir o apetite para a próxima…