Domingos…



Era Domingo, dos antigos. Daqueles Domingos perfeitos, dias próprios para rituais, dias que serviam unicamente para lembrar que, pelo menos por um dia, tudo seguia a ordem natural, tudo era como devia ser.

Deus tinha escolhido aquele dia, o sétimo, para descansar. No Caramulo, ti’António padeiro imitava-o, e ao Domingo não havia pão. O Café Marte era apenas isso mesmo: um café, com mesas e o Sr. Aníbal a servir e bilhares e matraquilhos. Mas sem pão-quente, descongelado e estaladiço.

Por isso havia aos sábados pão-de-forma, feito a pensar no dia seguinte.

Aos Domingos acordava com o barulho de lenha a crepitar no fogão. Sabia distinguir o barulho das pinhas e galhos, usados bem cedo para acender o lume. Ou das cavacas de pinho, que alimentavam o fogão depois.

A função primeira daquele fogão era a de torrar as fatias do pão-de-forma, que seriam depois pinceladas com manteiga derretida num pequeno copo de alumínio.

O ritual tornava-se então pessoal. Primeiro comia cuidadosamente as côdeas e suas vizinhanças. Para o fim deixava o miolo do pão, quente e ensopado em manteiga, forma perfeita de fechar o pequeno-almoço, abrindo um dia perfeito.

Era domingo, a lenha já crepitava no fogão, mas nesse dia não conseguiu comer uma torrada completa, uma única, que fosse. O miolo, cuidadosamente poupado, teimava em desaparecer repetida e impunemente. Roubado ali, à sua frente, perante a sua passividade incrédula. Afinal havia visitas, em casa. Havia ela, de visita. E só ela para cometer repetidamente tal crime e escapar. Com um sorriso nos lábios, como se fosse aquilo a coisa mais natural do mundo, como se fosse assim que devesse ser. Talvez fosse, talvez algum dia os rituais devessem mudar. Talvez fosse um sinal, talvez não pudesse ser outra coisa.

Era um sinal, sem dúvida.

E ainda hoje, quando ele come uma torrada fá-lo sabendo que nem sempre conseguirá comer o meio, o miolo.

9 responses

  1. Sérgio

    Belo texto amigo
    Abraço Sérgio

    Dezembro 18, 2010 às 9:09 am

    • Obrigado, Sérgio.
      Abraço

      Dezembro 18, 2010 às 7:30 pm

  2. Adorei!
    Me fez lembrar os meus domingos em casa. Que eram bem diferentes, claro, mas com esse aconchego que nos faz sentir pertencendo a alguém, alguma coisa, algum lugar. Sensação reconfortante, né? 🙂
    bjk

    Dezembro 18, 2010 às 11:52 am

    • É Mônica, a gente precisa de algum lugar assim, aconchegante. Por isso volto ao Caramulo sempre que posso. É para lá que irei no dia 23,ansioso pela noite de cosnsoada, pelo bacalhau, pela lareira e pelo frio lá fora…
      E, apesar de ser Mineiro adoptivo, tenho alguns rituais de Domingo em BH, que envolvem normalmente churrasquinho-de-gato e fanta uva na feira da Afonso Pena…
      Bjs

      Dezembro 18, 2010 às 7:28 pm

  3. Ah, e só agora fico sabendo que este é o centésimo post! Way to go! Rumo aos mil!!! 🙂
    bjk

    Dezembro 18, 2010 às 2:47 pm

  4. Curioso, ainda há tempos comentei um post onde se falava de como era irritante quando nos comiam o meio da torrada. Aqui, vê-se que, por vezes, há situações que o justificam 🙂

    Dezembro 18, 2010 às 5:30 pm

    • É coisa que só uma pessoa pode fazer e sobreviver para contar a história…

      Dezembro 18, 2010 às 7:29 pm

  5. Isabel

    Nem sei que te dizer, depois de se falar dos meios das torradas, só quando se gosta muito de alguém se tem coragem para deixar que essa pessoa nos roube os meios e sorrir no fim…

    Dezembro 19, 2010 às 5:56 pm

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s