Archive for Dezembro, 2010

2010



1.

Não sou de fazer balanços, o caminho é para a frente e é para lá que eu olho. E se por vezes viro a cabeça, é apenas para buscar a linha a seguir, para ter a certeza de que é recto, o caminho escolhido. Para manter o azimute.

2.

Apesar disso, apesar de não as procurar, assaltam-me recordações vindas do passado, surpresas sobretudo.

Essas agradeço-as. Boas, más, mas sempre surpresas. Do ano que finda ou de outro qualquer. De uma viagem, um almoço, jantar ou de uma qualquer cidade. Um jogo de futebol, um blog descoberto, amigos ganhos, reencontros. Desaparecimentos, também.

Recordações despretenciosas, sem objectivo, sem moral. Fragmentos de vida passada, fazendo-se vida presente. Vida, de facto.

3.

E é vida, o que desejo a todos, amigos, conhecidos, “aos que me dão lugar no bonde e que conheço não sei de onde, aos que me dizem terno adeus sem que lhes saiba os nomes seus”. Vida cheia de surpresas, que mais tarde se façam recordações, e que enfim se façam vida…


Natal à beira-rio

É o braço do abeto a bater na vidraça!
É o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado…

Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia…
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia!

David Mourão-Ferreira, Cancioneiro de Natal (1971)


Feliz Natal

A todos os amigos, visitantes e leitores, a família Ramos da Silva deseja um Feliz Natal e um grande 2011!


Chove. É dia de Natal.

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa
25/12/1930

 


A noite em que prenderam o Pai Natal

O velho Pascoal tinha uma barba comprida, branca, muito branca, que lhe caía em tumulto pelo peito. Estilo? Não: era desleixo, desleixo mesmo, puríssima, genuína miséria. Mas foi por causa daquela barba que ele conseguiu trabalho. Por isso e por ter nascido albino, pele de osga e piscos olhinhos cor de rosa, sempre escondidos por detrás de uns enormes óculos escuros. Naquela época já nem pensava mais em procurar emprego, certo de que morreria em breve numa rua qualquer da cidade, mais de tristeza que de fome, pois para se alimentar bastava-lhe a sopa que todas as noites dava o General, e uma ou outra côdea de pão descoberta nos contentores. À noite dormia na cervejaria, na mesa de bilhar, enrolado num cobertor, outro favor do General, e sonhava com a piscina.
Tinha trabalhado quarenta anos na piscina – desde o primeiro dia! – como zelador. Sabia ler, contar, e ainda todas as devoções que aprendera na missão, sem falar na honestidade, higiene, amor ao trabalho. Os brancos gostavam dele, era Pascoal, para aqui, Pascoal para ali, confiavam-lhe as crianças pequenas, alguns até convidavam para jogar futebol ( foi um guarda – redes ), outros segredavam confidências, pediam o quarto emprestado para fazer namoros.
O quarto de Pascoal ficava junto aos vestiários masculinos. Aquela era a sua casa. Os brancos davam-lhe palmadas nas costas :
Pascoal o único preto em Angola que tem casa com piscina.
Riam-se.
Pascoal, o preto mais branco de África.
Contavam piadas sobre albinos:
Conheces aquela do soba, no Dia da Raça, que foi convidado para discursar? O gajo subiu o palanque, afinou a voz e começou : « Aqui em Angola somos todos portugueses, brancos, pretos, mulatos e albinos, todos portugueses.»
Os pretos, pelo contrário, não gostavam de Pascoal. As mulheres muxoxavam, cuspiam quando ele passava, ou pior do que isso, fingiam nem sequer o ver. As crianças saltavam o muro, madrugadinha, e lançavam-se à piscina.
Ele tinha de se levantar, em cuecas, para os tirar de lá. Um dia comprou uma espingarda de chumbo, uma pressão de ar em segunda mão, e passou a disparar contra elas, emboscado por detrás das acácias.
Quando os Portugueses fugiram, Pascoal compreendeu que os dias felizes haviam chegado ao fim. Assistiu com desgosto à entrada dos guerrilheiros, aos tiros, aos saque das casas. O que mais lhe custou, nos meses seguintes, foi vê-los entrar na piscina, camarada já para aqui, camarada para ali, como se já ninguem tivesse nome. As crianças, as mesmas que antigamente Pascoal expulsava a tiros de pressão de ar , faziam chichi do alto das pranchas . Até que numa certa tarde faltou a água. Não veio no dia seguinte, nem no outro, nem nunca mais. O cloro acabou pouco depois. A piscina murchou. Ficou amarela de um amarelo baço, ficou ainda mais baça, e subitamente encheu-se de rãs. Ao princípio, Pascoal tentou combater a invasão, indo buscar a espingarda. Não resultou. Quanto mais rãs matava, mais rãs apareciam , rãs felizes, enormes, que nas noites de lua cheia cantavam até de madrugada, abafando o eco dos tiros, ao longe, e o latido dos cães.
Uma espécie de cansaço desceu por sobre as casas e a cidade começou a morrer. África – vamos chamar-lhe assim – voltou a apoderar-se do que fora seu. Abriram-se cacimbas nos quintais. Acenderam-se fogueiras nos jardins. O capim rompeu o asfalto, invadiu os passeios, os muros e os pátios. Mulheres pilavam milho nos salões. Os frigoríficos passaram a servir para guardar sapatos. Pianos deram excelentes coelheiras. Gerações de cabras cresceram a comer bibliotecas, cabras eruditas, especializadas em literatura francesa, umas, outras em finanças ou arquitectura. Pascoal esvaziou a piscina, limpou-a, juntou todo o dinheiro que tinha e comprou galinhas.Pediu desculpa à piscina:
– Amiga – disse-lhe – , é só por alguns meses. Vou vender ovos, vendo pintos e compro água boa, compro cloro, vais voltar a ser bonita como antigamente.
Os tempos que se seguiram, porém, foram ainda piores. Uma tarde apareceram soldados e levaram as galinhas. Pascoal não disse nada. Devia, talvez, ter dito alguma coisa.
Esse albino está armado em arrogante – irritou-se um soldado. – Deve pensar que é branco, vejam só , um branco de imitação.
Bateram-lhe. Deixaram-no como morto dentro da piscina. Meses depois, vieram outros. Tinham-lhes dito que ali havia um albino que criava galinha, e como não encontraram nenhuma, é claro, bateram-lhe também.
A guerra regressou com muita raiva. Aviões bombardearam a cidade, o que restava dela, durante cinquenta e cinco dias. Ao trigésimo sexto, uma das bombas destruiu a piscina. Durante semanas, andou Pascoal à deriva por entre escombros.
Uma vez apareceram três homens de jipe, um branco, um mulato e um preto, e todos de casaco e gravata.
Meu Deus, meu Deus! – lamentou o mulato, fazendo com a mão um largo gesto de desânimo. – Foi urbicídio isto, um urbicídio.
Pascoal não sabia o significado da palavra mas gostou dela. « Foi um urbicídio», repetiu, e ainda hoje, sempre que se lembra da piscina, fica horas a remoer aquela frase : « foi um urbicídio, aquilo, um urbicídio.» Uma tropa de brancos, muitos estrageiros, todos com chapeuzinhos azuis, recolheu-o numa madrugada de chuva em Luanda. Ficou dois dias no hospital, onde lhe trataram das feridas e lhe deram de comer. Depois mandaram-no embora. O velho passou a viver na rua. Um dia, era Dezembro e fazia muito calor, o indiano do novo supermercado, na mutamba, veio falar com ele:
Precisamos de um Pai Natal – disse-lhe – contigo poupávamos na barba e, além disso, como tens um tipo nórdico, ficava a coisa mais autêntica. Estamos a dar três milhões por dia. Serve?
A função dele era ficar em frente ao supermercado, vestido com um pijama vermelho, e de barrete na cabeça. Como estava magrinho, foi necessário amarrarem-lhe duas almofadas na barriga. Pascoal sofria com o calor, suava o dia inteiro debaixo do sol, mas pela primeira vez ao fim de muitos anos sentia-se feliz. Assim vestido, com um saco na mão, ele oferecia prendas às criancinhas (preservativos doados por uma organização não governamental sueca ao Ministério da Saúde) e convidava os pais a entrar na loja. « Sou o Pai Natal cambulador », explicou ao General.
Cambulador foi ofício em Angola até à primeira metade deste século: gente contratada para aliciar clientes à porta dos estabelecimentos comerciais. Cada dia Pascoal gostava mais daquele trabalho. As crianças corriam para ele de braços abertos. As mulheres riam-se, cúmplices, piscavam-lhe o olho ( nunca nenhuma mulher lhe tinha sorrido); os homens cumprimentavam-no com deferência:
Boa tarde, Pai Natal! Este ano como é que estamos de prendas?
O velho apreciava sobretudo o espanto dos meninos da rua. Faziam roda. Pediam muita licença para tocar o saco. Um, pequenino, fraquinho, segurou-lhe as calças:
Paizinho Natal – implorou -, me dá um balão.
Pascoal tinha instruções severas para só oferecer preservativos às crianças acompanhadas, e mesmo assim dependia do aspecto da companhia. O contrato era claro : meninos da rua deviam ser enxotados.
Ao fim da segunda semana, quando a loja fechou, Pascoal decidiu não tirar o disfarce e foi naquele escândalo para a cervejaria. O general viu-o e não disse nada. Serviu-lhe a sopa em silêncio.
Faz muita miséria neste país – queixou-se o velho enquanto sorvia a sopa- , o crime recompensa.
Nessa noite não sonhou com a piscina. Viu uma senhora muito bonita a descer do céu e pousar na beira da mesa de bilhar . A senhora usava um vestido comprido com pedrinhas brilhantes e uma coroa dourada na cabeça. A luz saltava-lhe da pele como se fosse um candeeiro.
Tu és o Pai Natal – disse-lhe a senhora,.- Mandei-te aqui para ajudar os meninos despardalados. Vai à loja, guarda os brinquedos no saco e distribui-os pelas crianças.
O velho acordou estremunhado. Na noite densa, em redor da mesa de bilhar, flutuava uma poeira incandescente. Voltou a enrolar-se no cobertor mas não conseguiu adormecer.
Levantou-se, vestiu-se de Pai Natal, pegou no saco e saiu para a rua. Em pouco tempo chegou à Mutamba. A loja brilhava, enorme na praça deserta, como um disco voador. As barbies ocupavam a montra principal, cada uma no seu vestido, mas todas com o mesmo sorriso entediado. Na outra montra estavam os monstros mecânicos, as pistolas de plástico, os carrinhos eléctricos. Pascoal sabia que se partisse o vidro dessa montra, conseguiria passar a mão através das grades e abrir a porta. Pegou numa pedra e partiu o vidro. Já estava a sair, com o saco completamente cheio , quando apareceu a polícia.
No mesmo instante, atrás dele, acendeu-se uma acácia, na esquina, e Pascoal viu a senhora a sorrir para ele, flutuando sobre o lume das flores. O polícia não pareceu dar por nada.
Velho sem vergonha – gritou ele. – Vais dizer-me o que levas no saco?
Pascoal sentiu que a sua boca se abria, sem que fosse essa a sua vontade, e ouviu-se dizer :
São rosas, senhor
O polícia , olhou-o, confuso:
Rosas? O velho está cacimbado…
Deu-lhe uma chapada com as costas da mão. Tirou a pistola do coldre, apontou-o à cabeça dele e gritou:
– São rosas? Então mostra-me lá essas rosas!
O velho hesitou um momento. Depois voltou a olhar para a acácia em flor e viu outra vez a senhora sorrindo para ele, belissíma, toda ela uma festa de luz. Pegou no saco e despejou-o aos pés do guarda. Eram rosas, realmente de plástico.
Mas eram rosas.
José Eduardo Agualusa.

Um conto de Natal



De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser – e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam… Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim… Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.

E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez reis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa… E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza.

Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura… Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo… Areias, queriam dizer. Importava-se lá.

E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa…

Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!

Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.

Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!

Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.

Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida… Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.

Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.

Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.

Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.

Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! – desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o ar canho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.

Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?

Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?

A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.

E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.

– Consoamos aqui os três – disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. – A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.

 

(Miguel Torga)

 


Domingos…



Era Domingo, dos antigos. Daqueles Domingos perfeitos, dias próprios para rituais, dias que serviam unicamente para lembrar que, pelo menos por um dia, tudo seguia a ordem natural, tudo era como devia ser.

Deus tinha escolhido aquele dia, o sétimo, para descansar. No Caramulo, ti’António padeiro imitava-o, e ao Domingo não havia pão. O Café Marte era apenas isso mesmo: um café, com mesas e o Sr. Aníbal a servir e bilhares e matraquilhos. Mas sem pão-quente, descongelado e estaladiço.

Por isso havia aos sábados pão-de-forma, feito a pensar no dia seguinte.

Aos Domingos acordava com o barulho de lenha a crepitar no fogão. Sabia distinguir o barulho das pinhas e galhos, usados bem cedo para acender o lume. Ou das cavacas de pinho, que alimentavam o fogão depois.

A função primeira daquele fogão era a de torrar as fatias do pão-de-forma, que seriam depois pinceladas com manteiga derretida num pequeno copo de alumínio.

O ritual tornava-se então pessoal. Primeiro comia cuidadosamente as côdeas e suas vizinhanças. Para o fim deixava o miolo do pão, quente e ensopado em manteiga, forma perfeita de fechar o pequeno-almoço, abrindo um dia perfeito.

Era domingo, a lenha já crepitava no fogão, mas nesse dia não conseguiu comer uma torrada completa, uma única, que fosse. O miolo, cuidadosamente poupado, teimava em desaparecer repetida e impunemente. Roubado ali, à sua frente, perante a sua passividade incrédula. Afinal havia visitas, em casa. Havia ela, de visita. E só ela para cometer repetidamente tal crime e escapar. Com um sorriso nos lábios, como se fosse aquilo a coisa mais natural do mundo, como se fosse assim que devesse ser. Talvez fosse, talvez algum dia os rituais devessem mudar. Talvez fosse um sinal, talvez não pudesse ser outra coisa.

Era um sinal, sem dúvida.

E ainda hoje, quando ele come uma torrada fá-lo sabendo que nem sempre conseguirá comer o meio, o miolo.


o elevador III



Voltava àquele hall de entrada. Olhava agora para o elevador, para aquele mesmo elevador de onde saíra, anos antes. Procurou em vão sinais dos planos que ali deixara, mas do passado viu apenas a mesa onde outrora se sentara o porteiro, a um canto, sozinha. E recordações, gratas recordações por todo o lado.

Estava ali, não para a ver, mas para deixar um embrulho na caixa de correio.

Estranhamente era primeira vez na vida que lhe dava um presente pelo Natal. Mas fazia sentido, depois de tantos anos. Fazia sentido como nunca. As conversas haviam rejuvenescido, lembrando tempos em que os planos eram deixados de parte e qualquer rumo era possível, em que o importante era estar ali, estarem ali, simplesmente. Tempos em que a distância era medida em passos. Entre a cama e a arca onde se sentava. Hoje uma imensidão e até o mar. E apesar disso tudo mais perto. Apesar da distância. Ou por causa dela.

No fundo é o que está impresso algures num livro. “A vida distanciou-nos dois mil quilómetros no espaço e dois mil anos no tempo, e a certa altura, precisámos ambos de voltar (…)”.

Precisava ele, pelo menos.

Por isso voltava, para deixar, cuidadosamente embrulhado, esse mesmo livro na caixa de correio.

Ao qual acrescentou uma frase, que ela lhe escrevera 20 anos atrás.

Bem atrás, no início de tudo…


Firenze



Chegara só.

Chegara a Santa Maria Novella, chegara sem vontade de estar sozinho.

Mas era o que tinha à sua frente: Firenze e dois dias solitários.

O hotel delle nazioni era a perfeita medida para um.

As ruas, essas anunciavam-se estreitas e intrincadas, dispensando rumo, desprezando planos.

Assim as percorreu, vezes sem conta, de dia e de noite, atravessando o Arno e voltando a atravessá-lo. Circundando o Duomo, perdendo-se pelas vielas.

Sozinho, em Firenze, descobriu companhia em todas as Nastro Azurro que bebeu na Pizzeria del Duomo. Acompanhando Dante, contemplando Beatrice na Ponte Santa Trinitá. Apaixonando-se irremediavelmente pela obra-prima de Giambologna, na Loggia Dei Lanzi.

Ao sentir-se reconfortado pelo tardio almoço no surpreendente i Matti di Firenze.

Ou quando no Duomo recolheu a companhia de um ramo de oliveira, nesse domingo de Ramos.

E só quando a estadia se encaminhava a passos largos para o final se voltaria a sentir sozinho.

Definitivamente só, esmagado pela fotografia dos irmãos Alinari, nessa inesperada visita que marcaria toda a viagem.

Como sozinho chegou a Santa Maria Novella para deixar a cidade.

Já com saudade…


segunda-feira, 21h30…

 

“(…)

O futebol é a tropa de uma geração que já não fez tropa – o momento em que nos protegemos todos uns aos outros, em que ninguém deixa cair ninguém. Não me venham dizer que é uma coisa sem importância, porque não é -é a única coisa que jogámos no 48k e no 386 e na PlayStation, o momento em que perdemos as estribeiras nestas vidas indolentes, uma coisa absolutamente séria. Certo, nós temos trinta, trinta e cinco, quarenta anos – a nossa oportunidade, provavelmente, já passou. Estaremos no nosso crepúsculo, no highlight of our twilight, sim – mas até ao final conservar-nos-emos aqui, prometo, à espera da nossa epifania, daquele momento em que algo descerá do céu, deus ex machina, e nos proporá: «Ainda queres tornar-te profissional?»

Nada acabou até ter acabado, amigos. E então preparamo-nos ao pormenor. Vestimos a roupinha toda. Compramos bolas Roteiro antes de ninguém, as botas Nike 90, as luvas do Oliver Khan. Ensaianos a finta do Zidane, o olhar dissimulado do Rochemback, a celebração do Pauleta – e tornamo-nos conhecidos por elas, cada um de nós por uma delas.

(…)”

Joel Neto

Para o Hugo, Henrique, Mário Miranda, Mário Dias, Filipe e Zé.

Pela noite de ontem.

E pelas melhores noites de segunda-feira que já passei.