Archive for Novembro, 2010

o elevador I

Cumprimentou o porteiro e dirigiu-se ao elevador, como tantas vezes fazia.

Esperou, revendo mentalmente o plano, as palavras que lhe diria. Como tantas vezes fez.

O dia era aquele, tinha que ser. Como sempre teve que ser. Como tiveram que ser todos os dias desde que a conhecera.

Parou no 5º andar e surgiu ela, na porta à espera.

E logo se reavivou uma qualquer conversa que haviam interrompido.

Que correu solta, dali até se sentarem, como sempre faziam.

Ela na cama, ele na velha arca forrada a pele.

E a conversa que não dava tréguas, adiando do plano. Para dali a 5, 10, 15 minutos.

Meia-hora, pronto.

Mas será agora o momento de usar palavras sérias e graves? Logo agora que a conversa parecia imparável?

Há-de surgir o instante certo. Uma pequena interrupção, uma pausa, sei lá.

Mas nunca era, nunca chegava. Todos os instantes eram cilindrados por essa conversa que nunca cessava. Pelas palavras que nunca faltavam. Pelo prazer imenso que era estar ali, com ela. Sem planos, sem nada de importante para dizer.

E o tempo, que voava ligeiro.

Despediram-se então. Sem que ele tivesse dito porque veio. Sem que tivesse interrompido a conversa como tinha planeado. Sem lhe ter feito a inevitável confissão, como tinha que ser.

Só mais tarde, muito mais tarde percebeu que não tinha que ser.

Que não era essa a razão que ali o levava. O motivo era ela, simplesmente.

E esse foi sempre cumprido, em todas as visitas, em todas as conversas.

Não o percebeu nesse dia, enquanto o elevador descia.

Cumprimentou o porteiro, pela última vez.

Olhou para trás, para a porta do elevador que se fechava.

Lá dentro ficaram os planos, desse dia como de todos os outros.

Como sempre…

Anúncios

S



 

Dei por mim a procurar SSS's na paisagem.
No céu, nas árvores, rios ou ruas.
O último surgiu-me, luminoso, na noite do Caramulo.
Fotografei-o, à distância, com destinatário certo.
Pensando num dia preciso.
Publico-o aqui, hoje, 10 de Novembro.
Para ser visto algures, para lá do Canal da Mancha…

pode comer-se…

“Pode comer-se, este vinho”, ouvi há alguns anos às margens do Dão.

Adorei a frase, que raramente uso embora lhe reconheça mérito de síntese ao descrever o vinho em apreço, substancial e redondo, quente e encorpado.

Passaram-se os anos, e as margens que hoje importam são de la Meuse, em Liège.

O jantar é servido na velha caixa-forte, na cave do que outrora foi um banco.

Dentro dos cofres escondem-se garrafas de vinho.

Que lá permaneçam pois a noite é da Chimay Rouge, que enche cada instante com o seu corpo.

Que encanta a vista com a sua sensualidade turva, e que turva a mente com o seu sabor imenso.

Que se pode comer, diria.

Que, qual paixão arrebatadora, faz esquecer todo o resto, que relega por largos momentos a comida servida na cave do Bruit Qui Court.

Que a torna inconveniente, até.

Como ofusca a despeitada Orval que a antecedeu e a orgulhosa Rochefort que a tentou suceder.

Em vão, pois nem todas as cervejas podem matar a fome.

Esta pode comer-se.

 



amargo-de-boca



Parecia tudo resolvido.

Parecia que tudo corria bem, que a sensatez tinha finalmente chegado, que tudo estava no seu lugar devido. Reinava uma sensação de justiça, de ordem.

Enganadora, porém, como tudo o que aparenta ordem nesta vida…

E se antes me invadia o conforto e a satisfação, eis que é a inquietude que ora se assume.

Inquietude que, avolumando-se se transforma em decepção.

Talvez não fosse assim se fosse capaz de olhar o quadro de longe, com distanciamento suficiente para perceber o conjunto.

Talvez não fosse assim se o que visse fosse outra coisa que não egoísmo e cedência ao impulso, ao fácil.

Não fui capaz, confesso-o.

Daí ser a decepção a sensação última, que impera, que perdura .

Durará algum tempo, bem sei, mas desaparecerá.

Este é um facto inquestionável, tão absoluto quanto a certeza de que a sua partida não será definitiva, tão certo quanto a inevitabilidade do seu retorno.

Aguardemos, pois.

E lidemos com o que vier…


Coimbra



Andámos desavindos, eu e Coimbra.

Por muitas razões, concretas, imaginárias, irracionais, mas estúpidas todas elas.

Porque Coimbra foi importante demais para mim, para que a possa esquecer, foi demasiado central na minha vida, para que possa simplesmente passar ao lado.

Mais tarde ou mais cedo tinha que voltar a olhar para ela.

Aconteceu quando o trabalho me levou pelas escadas do Quinchorro até à Couraça de Lisboa. Quando subi pelo jardim da Manga até a Couraça dos Apóstolos, descendo daí até o arco de Almedina.

E foram estes vestígios da fortificação Coimbrã que sobreviveram à deriva megalómana do Estado Novo, às demolições dos anos 40, e ao desnorte urbanístico que se seguiu, que me devolveram Coimbra.

Simplesmente porque resistiram à irracionalidade, ao esquecimento.

Como Coimbra resistiu ao meu descaso, esperando a oportunidade de voltar a ser minha…


fotografia na cozinha



Ensinaram-me a não brincar com comida.

Nunca me ocorreu, por isso, fotografá-la.

Até ao dia em que o meu pai recebeu um pedido de fotografias para decorar um restaurante.

Contribuí com um “arroz de polvo”, e gostei do resultado.

Desde então, embora de forma irregular, tento fotografar na cozinha.

Pratos que adoro, como arroz de cabidela, tortulhos, sopa seca, paps de nabiças ou batatas com sangue.

Pratos que fotografo autênticos, com luz natural, com um mínimo de produção, sem grandes demoras.

Até porque o destino deles é a minha mesa, e não convém que arrefeçam…