Archive for Outubro, 2010

As Ouhès



Um ano depois voltei ao As Ouhès, em Liège.

E se no passado foi por acaso que me sentei sozinho na esplanada da Place du Marché, o regresso, em grupo e ao interior do restaurante, esse foi deliberado.

O menu, repetido a rigor, começou com a soupe à l’oignon gratinée, terminando com les fameux boulets à la Liégeoise, au sirop de Liège et aux raisins.

A cerveja, claro, foi a brilhante Jupiler que conheci precisamente ali, precisamente naquelas mesas.

Dito assim soa a marasmo, a rotina, a passeio domingueiro.

E seria, não fora a perfeição, não fora essa capacidade de superar expectativas já de si elevadas.

Só pode ser perfeição essa habilidade que a cozinha revelou ao suportar o peso da repetição, de surpreender, apesar da falta desse importante condimento que é a surpresa.

Contou com a ajuda preciosa da Jupiler, a que outrora chamei efémera.

Mas que surgiu na mesa com ares de quem veio para ficar, brilhante e viva, com carácter invulgar numa cerveja de grande produção.

Que acompanhou o sabor do queijo gratinado, do molho Liégeoise de forma perfeita.

Posto isto, o resultado não poderia ser senão extraordinário. Não podia ser menos do que uma noite memorável.

Em que me deliciei com os pratos, como se fosse a primeira vez, em que bebi cada cerveja, como se fosse a última.

Não foi, felizmente.


a raia



A raia Beirã sempre foi, para mim, um imenso mistério.
Terra de contrabando e passagens “a salto”. De heróis e vilões.
Foi por isso com emoção que desci, há alguns meses, de Vilar Formoso pela “nacional” 332.
Em direcção a Nave de Haver, onde o trabalho me levava.
Mítica essa estrada, onde apenas as casotas dos guardas denunciam a proximidade de uma fronteira invisível.
Por onde outrora passaram tantos, à procura de melhor sorte.
Por onde outrora entrou tanto, que de outra forma era negado.
Onde a miséria geral garantia o modo de vida de alguns.
Hoje resta o abandono. As memórias de outros tempos.
A miséria geral, apenas.
Ontem regressei.
Subi do Sabugal, novamente em trabalho, rumo a Vilar Maior.
E essa viagem levou-me a um passado mais longínquo.
De disputas entre Castilla-Léon e Portugal.
De castelos, que se sucedem a um ritmo impressionante. Que surgem, altivos, quando menos se espera.
É assim o de Vilar Maior.
Com a sua elegante torre, rematando as ameias irregulares e almendradas
Encimando uma aldeia que não perdeu ares da importância de outrora.
Que conserva uma personalidade estranha, cotraditória.
De abandono, mas de altivez.
De derrota, mas de esperança.
De fim próximo, mas de recusa.
Voltarei. A Alfaiates, Castelo Mendo, sei lá
Voltarei quando me apetecerem “os dias rubros de soalheira, as vinhas, os baldios, os lagartos torrando-se no cimo das fragas, vida quente e livre, sem aquelas necessidades miseráveis de comida, botas, tabaco e vinho”


Luisa


Ao contrário do dia de hoje, foi chuvoso, esse 20 de Outubro de 1997.
Que começou com um sobressalto, com aquela sensação de que “é agora, é hoje”.
E foi. Mais do que o dia, foi no fundo uma nova vida
Quando, à porta do bloco operatório, peguei pela primeira vez nela.
Foi Lulu, Lupita, “chatinha, “saquinho de batatas” e outros nomes.
Foi “menina cor-de-rosa“, deixou de o ser.
Foi sapeca. Mais ou menos, conforme a fase.
Foi guitarrista, flautista, bailarina, pintora. Modelo, até.
Bebé, criança e mulher.
Detestou futebol, até passar a adorá-lo.
Tudo isto num ápice, tudo isto em 13 anos.
Breves mas cheios de descobertas, de surpresas.
Porque cada fase é uma descoberta. Uma surpresa.
Dela, sem dúvida.
Mas minha, também. Nossa, posso dizê-lo. 
Começou no Hospital que recebeu o nome de Pedro Hispano.
Pedro Julião ou João XXI, “aquele que brilha em doze livros”, segundo Dante.
A Luisa, essa brilhou já em 13 anos. Como brilhará por muitos mais…


diapositivo

diapositivo

imagem fotográfica positiva, em vidro ou em película, para ser observada por transparência ou em projecção

 

A partilha das imagens era virtualmente impossível.
A primeira alternativa era a projecção.
Montar a tela ou tirar o quadro da parede branca.
Procurar um local para o projector, a uma distância razoável, a uma altura que permitisse uma linha de projecção ortogonal.
Colocar os slides no bastidor com cuidado. Uma queda representava trabalho infindo…
Depois iniciar a sessão. Esperando um mínimo de precalços.
Um slide encravado exigia rapidez e destreza. Caso contrário era melhor ter uma lâmpada nova à mão…
Outra alternativa era a visualização através de um pequeno dispositivo que se passava de mão em mão.
Onde os slides eram vistos um-a-um. Demoradamente, deixando um rasto de slides espalhados pela mesa.
A passagem para papel, essa não era mais fácil.
Decepcionante, se feita pelo económico método positivo-negativo.
E dispendiosa, quando se recorria ao processo Cibachrome.
Sim, a logística era complicada.
Por isso, na maior parte dos casos, as imagens ficavam para sempre aprisionadas naquele caixilho de plástico, dentro de uma qualquer caixa, num qualquer armário.
Algumas sobreviveram ao tempo, por artes misteriosas.
Pelas cores, saturadas, naturais e hipnóticas.
Pela realidade que vemos ainda hoje, naquele rectângulo de 24x36mm.
E o que vemos é, aliás, melhor do que a realidade: é fotografia no seu melhor.
É magia, no fundo.
Magia positiva…


super bock

Chegou-me às mãos o livro “99 cervejas +1”, de Francisco José viegas.
Das mãos de um bom amigo.
Com copos de cerveja, de permeio.
Vieram-me então à ideia as cervejas da minha vida.
A Super Bock com que começava as noites de terça-feira, no Académico em Coimbra.
Ou a Topázio com que a encerrava, invariavelmente.
Pelo meio uma mesa naquele primeiro andar onde mal cabíamos em pé.
Mas onde cabia o Jorge Lopes.
Onde cabiam todas as conversas do mundo.
Nessa mesa onde não coube Deus. Onde me conheci como ateu.
Onde se sentava, em horas tardias um miúdo com sono e com pensos-rápidos para vender.
Depois o tempo, que tudo arrasta.
Deixei Coimbra, para regressar ao Porto
O Jorge rumou a Évora, via Funchal.
Do Académico só resta o nome. E um daqueles cafés, assépticos e aburguesados.
A Super Bock há muito deixou de ser aquela cerveja bairrista e nortenha.
A alta de Coimbra ficou vazia.
A Praça da República deixou de ter o encanto de outrora.
E a Topázio, essa desapareceu, simplesmente.

Levando com ela o meu ateísmo convicto…

 


19

Há instantes que partem uma vida, deixando para trás um antes, abrindo horizontes para o depois.
Foi assim aquele 10 de Outubro em que o momento, que se vinha insinuando há meses, finalmente chegou.
Para trás ficou um filme de Hitchcock, no velho Carlos Alberto.
E o regresso, à FEUP, na Rua dos Bragas, onde estava a velhinha Opel Rekord que nos havia de levar à Senhora da Hora.
Depois o caminho, imenso e absoluto, que se abriu naquela noite.
Que calcorreamos até hoje, transformando o futuro em presente.
Caminho que hoje completa 19 anos, e que voltaria a tomar, sem dúvida nem hesitação…


os mercados…

São agora “os mercados”, a causa de todo o mal.
Como foram outrora as agências de rating.
E a competitividade, antes disso.
A consolidação orçamental. O défice. As metas do Euro.
Ou como será, no futuro próximo, o FMI.
O certo é que nunca é o governo. Nunca são as opções tomadas.
Mas foi no governo, nas opções a tomar, que os Portugueses votaram nas últimas legislativas.
Não me lembro de ter visto “os mercados” no boletim de voto.
Lembro-me, sim, de um compromisso eleitoral, que “rejeitando o agravamento de impostos” foi sufragado e aprovado.
E convertido em Programa de Governo.
Programa deste governo que agora invoca “os mercados” para, “com um aperto no coração”, anunciar a imposição de mais um conjunto de sacrifícios aos assalariados.
Não foi o primeiro.
Não será o último, por muito que o afirme Sócrates.
Basta “os mercados” pedirem…


de luz e sombra

só na sombra se revela a forma
só do silêncio nasce a palavra

na minha mesa

Começou aqui, no blog da Mônica, a ideia.
Uma foto da minha mesa, foi o que pensei.
Mas a desarrumação, minha, do Francisco e da Luisa, torna-a num repositório de papeis, canetas e sei-lá-mais-o-quê…
Pouco apresentável. E nada fotogénica.
Entre arrumá-la e mostrá-la aos pouquinhos, optei pela segunda.
Este é o porta-papeis onde guardo religiosamente os cartões dos restaurantes que quero recordar. Onde quero voltar.
Ali está o da Adega Faustino, em Chaves. Antigo armazém de vinhos onde comi as melhores iscas de fígado de que me lembro.
Do As Ouhès, em Liége. Onde fui surpreendido pela cerveja Jupiler.
Do Santa Luzia, em Viseu. Onde volto todos os Outonos para comer míscaros. Com cabrito, frango ou Porco, tanto faz.
Do Rosa da Rua, ponto de encontro do Bairro Alto, onde se pode até não-jantar.
Do Lis, em Évora, templo da cozinha Alentejana.
Do Solar dos Presuntos.
Do Camafeu de Oxossi. Do Hotel RivaLago em Sulzano.
E do Touperinho, onde hoje comemos um robalo perfeito.
É assim, a minha mesa. Um pouco dela, pelo menos… 


a primeira vez

Não foi a minha primeira vez, na Luz.
Foi a da Luisa.
E foi para a Luisa.
Foi por ela que a chuva parou, depois do dilúvio.
Foi para ela toda a chuva do dia.
O cheiro do relvado húmido, ali à mão.
Foi por ela que, um a um, David Luiz, Aimar e Coentrão desfilaram, naquela lateral esquerda.
Que Maxi e Luisão foram inultrapassáveis, na direita da defesa.
COmo só podia ser para ela aquele golo do Carlos Martins.
Não foi a minha primeira vez, na Luz.
Mas foi única.