Archive for Setembro, 2010

amor segundo

(…)
Questão é curiosa nesta filosofia, qual seja mais precioso e de maiores quilates: se o primeiro amor, ou o segundo?
Ao primeiro ninguém pode negar que é o primogénito do coração, o morgado dos afectos, a flor do desejo, e as primícias de vontade. Contudo, eu reconheço grandes vantagens no amor segundo.
O primeiro é bisonho, o segundo é experimentado: o primeiro é aprendiz, o segundo é mestre: o primeiro pode ser ímpeto, o segundo não pode ser senão amor.
(…)
Padre António Vieira
Sermão do Mandato
Há fotografias que me apaixonam.
No preciso instante do disparo.
Nesse momento sei que aquela é uma das melhores fotos da minha vida.
Senão a melhor.
Apresso-me em vê-la. Contemplá-la. E editá-la.
Linda, uma obra digna de registo.
Exibo-a, submeto-a à crítica.
Que invariavelmente fica aquém das minhas próprias expecativas.
Injustos, eles. Incompreendida, a foto.
Depois vem o tempo.
E com ele um pequeno defeito que cresce.
A composição, que envelhece.
E o meu olhar, que se agudiza.
Reduz-se então à mediania, a imagem outrora perfeita.
Felizmente há outras que descubro.
Meses depois de tiradas. Ou anos.
Que esperaram pacientemente, num qualquer canto.
Até um dia. Até ao dia certo.
Até que o meu hábito de voltar a rever fotos antigas as resgate ao esquecimento.
Ei-las, seguras como nunca as vi.
Consistentes como não as julguei.
Desafiantes, como raras.
E aí, alguma coisa acontece no meu coração.
Que me dá a certeza de que são essas as que perduram.
Para sempre.
Como o amor segundo…

egoísta

Há fotografias que valem apenas pelo acto de fotografar.
Pelo prazer do fotógrafo.
Pela processo em si mesmo.
As escolhas, as decisões.
As dificuldades.
A concentração, a vertigem do momento.
O resultado, esse não prima pelo conteúdo.
Pela originalidade.
Não faz ninguém parar. Não faz pensar.
Não impressiona pela qualidade estética.
Jamais merecerá uma parede.
Não vai perdurar.
Esgotou-se no momento em que o obturador fechou.
Esfumou-se com prazer efémero do fotógrafo.
Há fotos assim, felizmente.
Simples e egoístas…

Outono

Cada estação tem o seu tempo.
Um tempo perfeito.
Ao Outono coube-lhe encerrar os excessos do Verão.
Anunciar a míngua do Inverno.
As folhas mortas, o Sol mortiço.
Os tortulhos, as romãs.
A vindima. O lagar.
O magusto e os finados.
Tudo no seu tempo perfeito.
Ao Outono coube-lhe a quietude. A paz.
A reflexão, o olhar para trás.
O recomeço. Tranquilo.
Enquanto a primavera desponta, lá longe…

Porque…

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andressen

Não sei em quem pensou Sophia, quando o escreveu.
Sei em quem penso quando o leio.
Sei-o, todas as vezes que o leio.
Sei quem o merece.
E sei quem precisa de o escutar, hoje…

 


(sobre)exposição

sobreexposição:
1. exposição excessiva
2. FOTOGRAFIA acção de expor uma emulsão fotográfica à luz por um tempo maior que o indicado ou considerado normal

É considerada um erro, geralmente.
Pelos adeptos do “by-the-book”, radicais da luz ideal. Do politicamente correcto.
Ou pelos novos-digitais, fundamentalistas do HDR. Que distorcem toda uma cena, em busca da luz perfeita. Quando ela não existe.
Mas o certo é que, por vezes, só a sobreexposição nos permite ver para além do óbvio.
Não fora ela, e veríamos apenas o que a luz nos permite.
O que a nossa limitada visão deixa.
Por mim, sempre que me apeteça, continuarei a abrir o diafragma mais do que o fotómetro indica.
Ou a manter o obturador aberto para além do aconselhável.
Continuarei a sobre-expor.
Como continuarei a expor-me.


Lembras-te?

Parece faltar tudo, quando nos falta o chão.
Acostumamo-nos a ele. A que esteja ali.
Que nos dê segurança. Que nos dê suporte.
É seguro, sim. Mas limita-nos.
Rouba-nos perspectiva.
Dá-nos gravidade. Dá-nos peso.
Sobre ele andamos.
Mas sem ele voamos.
Lembras-te?…

o homem do leme

(…)

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

Fernando Pessoa, Mensagem, 1934