Tongóbriga

1.
Zeloso do meu sentido de orientação, resisti ao GPS. O mais que pude.
Até ao último Natal, quando recebi um, de presente.
Começou mal, a experiência com a coisa.
Almoço de aniversário de minha mãe, marcado para o restaurante “A Escola”.
Em Macieira de Alcoba, recôndita aldeia da Serra do Caramulo.
Confiança ao máximo, coordenadas no GPS e aí vamos nós…
Estranhei que o caminho sugerido divergisse das indicações dadas pelo meu pai, mas enfim, evolução é assim, e a máquina deveria conhecer algum atalho…
Afinal não. Tive que recorrer a indicações telefónicas para reencontrar o restaurante, onde já todos os convidados me aguardavam…
Diferentes referenciais, explicaram-me…
Depois España. Aí, a utilidade do GPS foi evidente.
Conduziu-me, despreocupado, pela imponente Ávila. Pela mágica Toledo.
Até à surpreendente Valência.

2.
Ontem, depois de subir a marginal do Douro, depois de me ter rendido à curva do Rio, em Melres, depois de umas deliciosas sardinhas fritas com arroz de feijão, no belo Ponte de Pedra, vi-me “perdido” perto do Marco de Canavezes.
Sem saber bem o que fazer, liguei o GPS e pedi-lhe pontos de interesse nas redondezas.Respondeu-me com a “cidade romana de Tongóbriga“. Rimo-nos, fizémos piadinhas sobre se seria necessário um ferry para chegar ao destino.
E recordámos um episódio pré-GPS de há uns bons 15 anos, perto de Viana do Castelo.
Gostamos de ruínas e de vestígios históricos. Não resistimos pois a seguir as indicações de um Castro, surgidas na estrada.
Indicações que nos conduziram a um monte, cheio de pinheiros e com casas à volta. Vasculhado o monte, sem encontrar o mais pequeno vestígio do dito povoado, perguntámos a uma mulher que passava.
A resposta foi um eloquente “sim, já ouvi dizer que há aí um Castro, mas já moro aqui há 40 anos e nunca o encontrei…”
Desta vez não foi assim. Sob os nossos pés foram surgindo ruínas. Nascendo por debaixo das casas. Que certamente foram aproveitando pedras cheias de história, na sua construção.
O tempo foi pouco para os 50ha de extensão.
Havemos de voltar.
Assim queira o GPS…

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há dias assim…

Dias de solidão.
Há-os por muito que os não deseje.
Caminhos que devo percorrer sozinho.
Perguntas mudas, no ar.
As respostas, essas virão com o vento.
E serão minhas. Só  minhas.
Daí a solidão.

teleobjectiva

Fascinam-me as fotografias com gente.
Sempre me fascinaram.
Instantâneos do quotidiano, pedaços de vida imortalizados.
Fotografar gente, no entanto, sempre foi um enorme problema para mim.
Para o fazer havia que chegar perto.
Mas com uma máquina por perto tudo muda. A autenticidade esfuma-se.
E o que ficava era apenas um sentimento de invasão. De devassa da privacidade.
Tudo mudou quando finalmente comprei uma teleobjectiva. Uma velhinha 75-300mm.
Aí pude passar a fotografar à distância.
Deixando a vida seguir seu rumo, sem interferências.
Com o tempo deixei de me sentir intruso.
Ganhei gosto pelo estilo.
Passei a ver gente que antes passava incógnita.
A vislumbrar movimento onde havia marasmo.
Harmonia no caos.
Sentido no dia-a-dia.
Ver vida que não via, enfim
O mundo não mudou.
Mudaram os meus olhos.
Graças a uma teleobjectiva.
Velhinha e usada.

a bandeira

Poucas coisas há na nossa vida que, contando na sua génese com infinita incerteza, originem convicções tão firmes e carregadas da mais absoluta certeza.
É assim o futebol. Felizmente.
Afirmações destemidas, tão carregadas de improbabilidade como de paixão são frequentes, aqui.
Porque a improbabilidade motiva a paixão.
E a paixão, já se sabe, vive de certezas tão sólidas como voláteis.
É sintomático, por isso, a ausência de entusiasmo à volta da selecção.
Ninguém aposta na conquista do troféu.
Excepção feita a Sócrates.
Mas a situação em que nos encontramos diz bem da acuidade das suas previsões.
Não se ouvem discursos delirantes. Declarações apaixonadas.
Nem do público anónimo. Muito menos de Queirós.
Bandeiras nas janelas, contam-se pelos dedos das mãos.
E algumas, pelo aspecto, devem ser ainda as pedidas pos Scolari em 2004.
Não há paixão, neste ano da graça de 2010.
Não se vão ouvir as vuvuzelas, na África do Sul.
Seremos campeões?
É possível.
Mas não é um sonho.
É apenas um cenário.

a técnica

A paixão pela fotografia chegou-me pela técnica.
Chegou-me pelo meu pai.
Que me explicou o que era o obturador e o diafragma.
Que é a combinação dos dois que nos dá a luz perfeita de uma imagem.
Uma das muitas combinações. Uma das muitas luzes perfeitas.
Nesses meus 10 ou 11 anos, as máquinas eram rudimentares.
Fotómetro era um luxo.
Dia de sol era para 1/125s-f11.
Núvens? Abre-se mais, f8 ou f5,6. Ou expõe-se mais tempo, 1/60s ou 1/30s, se a mão for firme.
Fotografia de desporto? 1/500s. Máquinas mais rápidas eram inatingíveis.
Hoje, encontramos com facilidade máquinas que disparam a 1/4000s. Ou mais.
Capazes de congelar o mais rápido movimento.
Um objecto a 150Km/h, por exemplo, percorre 1cm, durante a exposição de uma foto, a 1/4000s.
A 1/125s, percorre cerca de 33cm.
Fotografia tremida, por certo.
Ou não, se conseguirmos acompanhar o movimento do objecto fotografado.
Que aparecerá nítido, destacado do fundo, arrastado pelo movimento da máquina.
A subversão compensa.
Nem sempre a opção lógica é a que melhores resultados produz.
É assim, a fotografia.
É arte.