Archive for Junho, 2010

São Pedro

Siza Vieira, Fátima
Fernando Távora costumava dizer que um projecto de arquitectura se faz no terreno, não no estirador.
Planos, estudos, esboços são essenciais, claro.
Mas não valerão de muito se imutáveis.
Serão empecilhos, se ultrapassados pela realidade.
Queirós não conheceu o mestre Távora. Não ouviu as suas palavras.
Planeou o jogo de Espanha no estirador.
E seguiu o seu plano. Cegamente.
Não entendeu o terreno e substituiu Hugo Almeida. Tal como tinha idealizado.
A realidade Espanhola engoliu então o sonho Português.
Começou aí o calvário da selecção.
Os mais deprimentes 20 minutos deste mundial.
Nesse dia de São Pedro saímos sem honra. Nem glória.
Mas saímos com a certeza de que há ali uma pedra que pode ser aproveitada.
Que sobre ela se edifique uma boa equipa.
No terreno. Não no estirador.
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No sofá…

Francisco e Luisa nunca ligaram a futebol.
Nunca fiz grande esforço para o mudar, confesso.
Mas mudou, para surpresa minha.
Primeiro com a grande época do Benfica.
Luísa começou a escolher os seus ídolos. David Luiz foi um deles.
Veio o Mundial. A devoção foi então para Simão, para minha felicidade.
E com o Mundial eis que também o Francisco passou a interessar-se.
Primeiro pela matemática da questão. Sabia todos os pontos conquistados na fase de grupos.
Quem ficou em primeiro, quem tinha hipóteses de passar.
Quais eram os critérios de desempate.
Mas surpreendeu-me, quando no último domingo, estando eu com os meus amigos facebookianos do “Gang Cool”, entretidos com um prato (vários) de caracóis, o árbitro apitou para o início do Argentina-México.
Foi quando começou a apressar-me par regressar a casa, para ver “pelo menos a segunda parte”.
Por isso dispensei hoje vários convites gastronómicos para ver o jogo.
Vê-lo-ei no sofá de casa, ao lado do Francisco.
Em vez de sardinhas, haverão explicações sobre o que é o “fora-de-jogo”.
Em vez de conquilhas haverão perguntas sobre a diferença entre a pequena e a grande-área.
Em vez de bacalhau espero questões sobre as escolhas de Queirós…
Não haverá, desta vez, crónica gastronómica.
Mas haverá futebol. Como deve ser. Entre pais e filhos…


España

Saiu-nos España.
Ao almoço, hoje.
Ao fundo, a Praia da Baleeira. E a Pousada de Sagres.
No prato o espadarte, beirando a perfeição.
Na mesa ao lado, España.
Uma família Española.
Ruidosa, ostensiva, cansativa.
A tranquilidade chegou, quando por fim partiram.
No fundo a paisagem de cortar a respiração.
Na mesa o espadarte.
E finalmente o silêncio.


Ingrina

“A omnipotência do sol rege a minha vida enquanto me recomeço em cada coisa.”

É estreita, a estrada para Ingrina.
Como estreito foi o caminho para a baliza de Julio César.
Porque assim o fez Queirós, porque assim o quis.
Com o empate na cabeça, foi dia de experiências.
Falhadas, sem excepção.
Cristiano, sozinho, deixado à sua sorte.
Deprimentes, Duda e Danny.
Ricardo Costa como terceiro defesa direito.
Em três jogos. E foi claramente o pior dos três.
Finda agora o tempo das experiências. Agora é a sério.
É hora do recomeço.
Que as palavras de Sophia cheguem a Queirós.
De Ingrina para Cape Town…

“E sobre a areia sobre a cal e sobre a pedra escrevo: nesta manhã eu recomeço o mundo.”


São João

Por estranho que pareça, existe uma estranha relação entre o São João, anos pares e futebol.
Para mim, pelo menos.
Sei-o desde 1984. Noite de São João.
Quando, no Caramulo, a sardinhada, baile, e tudo o que se exige neste dia, foram adiados para ver o Portugal-França.
Que seria um calmo “cumprir calendário”, segundo os Franceses.
Mas que Chalana e Jordão transformariam numa árdua jornada de trabalho.
Que terminou com o golpe de Platini, já no prolongamento.
12 anos depois, nova noite de São João.
Em custóias, casa da Sameiro, tradicional pouso na noite mais longa do Porto.
Televisão no pátio, animação ao rubro, sardinhas a pingar sobre as brasas.
Como pingou, o chapéu de Poborsky a Baía.
Qual orvalhada refreando os ânimos dos foliões…
O dia de São João, de 2004, seria de glória para Ricardo.
Ficarão na história aqueles minutos, em que Ricardo marcou e defendeu os penaltis decisivos desse Portugal-Inglaterra.
Como ficará na história, esse gesto simbólico de tirar as luvas para defender, de mãos nuas, o remate de Vassel.
Os Ingleses rumaram para casa.
Ricardo ganhou, nesse dia, o epíteto de Coração-de-Leão.
Desta feita quis a sorte que o jogo de Portugal fosse no dia 25.
Não é inédito.
Em 2000, dois golos de Nuno Gomes à Turquia, num jogo sem grande história.
Em 2006, jogo épico contra a Holanda, com nervos à flor-da-pele. Costinha foi expulso, Maniche marcou o golo da vitória.
Espera-nos o jogo com o Brasil.
Nesse dia de São Máximo de Turim, devoto confesso de São João.
Mas antes disso, celebre-se o Baptista.
Pinguem as sardinhas na broa.
Corra solto, o vinho verde-tinto de Ribeira de Pena.
E subam os balões.
Inchados pelo ânimo de sete golos…


cerejas…

Segundo jogo de Portugal. Segundo almoço.
Em Pedras Rubras, desta feita.
E começou promissora, a refeição.
Bola de carne perfeita, com a bola de Ronaldo e Carvalho a encotrar o ferro.
Seguiu-se um bacalhau desinspirado, à semelhança do que se passava na Cidade do Cabo.
Mas o melhor estava para vir.
E veio quando à mesa chegaram, de surpresa, magníficas cerejas pretas da Cova da Beira.
E, já se sabe, quando se puxa uma cereja vem sempre outra atrás.
E assim foi até ao 7-0…
Esperemos agora pelo Brasil.
Que será servido com um prato de conquilhas.
Em Lagos, na próxima sexta-feira.
Saibamos nós sair da concha e não restará senão molho, no prato…


intervenção divina

Só uma intervenção divina pode salvar a França.
Disse-o Domenech. E disse-o com razão.
A França entra para o último jogo obrigada a ganhar aos anfitriões.
México e Uruguai classificam-se com um conveniente empate.
Bem pode pois o seleccionador Francês evocar protecção divina.
Mas contra Unkulunkulu, só uma divindade do futebol pode servir-lhe.
E dessas é Maradona a que está mais à mão.
E quem sabe se não será Diego Armando a última esperaça dos “bleus”.
Porque é verdade que um empate serve a Mexicanos e Urugaios.
Mas não de forma igual.
A um deles espera-o a temível Argentina.
E pode ser esse factor que impeça o pacto. A acomodação.
Que leve o México a arriscar, para evitar Messi.
Que parta o jogo. Que impeça a modorra previsível.
E que desfaça o empate.
Que ajude Domenech.
E confirme Maradona como Deus Maior…


Deco

Há desculpas que soam a falso.
A concessão fácil.
A falta de carácter.
A subserviência desmesurada. A paz podre.
Dizemos coisas, todos nós.
Algumas preferíamos não as ter dito.
Porque magoámos alguém.
Porque foram mal ouvidas.
Ou porque saíram da boca, não do coração.
Dessas, só dessas devemos desculpas.
Das outras, das sentidas, não nos resta senão aceitar as consequências.
Ser coerente.
E dormir descansado.

e agora?

Queirós escolheu três selecções africanas para os três jogos de preparação de Portugal.
Para preparar o jogo com a Costa do Marfim, ouvi-o dizer.
Como se do último se tratasse.
Não resultou, como é óbvio.
Não pelo resultado, que não é trágico.
Mas pela exibição, pela impreparação.
Pela sensação que ficou de que fomos manietados pelos Marfinenses.
Por Erikson.
Mas, pior que isso, deixa agora uma enorme sensação de vazio.
Não nos preparámos, para o que vem a seguir.
Para o mata-mata que será o jogo contra a Coreia.
Para o sufoco que vai ser o jogo com o Brasil…
Resta-nos trabalhar, agora.
E jogar.
Não é para isso que estamos aqui?

left

1. o Jogo
Foi o esperado, o jogo.
O ketchup quase saía naquele remate ao poste. Mas ficou-se pelo quase.
Como ficou pelo quase todo o jogo de Portugal.
A Costa do Marfim entregou o domínio do jogo a Portugal, pondo no entanto todo o empenho e poderio físico na defesa do seu meio campo.
Portugal não o soube aproveitar.
Uma noite apagada de Deco, e o perfil defensivo de Pedro Mendes e Raul Meireles condenaram o meio campo Português a uma total ineficácia.
Ronaldo denotou uma tremenda ansiedade.
Liedson andou sozinho, batalhando, nem sempre bem, no meio dos Marfinenses.
Sobre a defesa, pouco há a dizer. O que é bom sinal.
Mas no fundo foi a esquerda, a imagem de todo o jogo.
Coentrão cumpriu, Danny não.
Que Queirós consiga tirar daí ilacções é o que espero.
2. o horário
Uma agradável surpresa, o horário.
Parecendo incómodo, à primeira vista, revelou a grande virtude de proporcionar um almoço tardio, com amigos.
O jogo foi servido, algures no Mindelo, junto com filetes de sardinha. Perfeitos como nunca comi.
Sabiamente acompanhados por um extraordinário arroz de grelos.
Um Douro da Kopke abriu as hostilidades que cessaram com a última gota do Terras do Demo.
Fosse a selecção tão competente como a cozinha do “Recanto” e Drogba estaria agora desfeito em lágrimas…