geometria variável

Quando li a declaração de amor eterno que Veríssimo dedicou à sua primeira bola, em forma de crónica, viajei até ao Caramulo dos anos 70.
Em que nos deleitávamos em intermináveis jogos de futebol no pátio do Lusitano, antigo sanatório construído por meu avô.
Com a minha primeira bola.
Não era uma “nº5”. Não era de couro. Não era sequer verdadeiramente uma bola.
O uso intensivo, os estrondosos choques contra as paredes do edifício cedo lhe roubaram a forma esférica.
Mas a imperfeição geométrica nunca foi problema, quando o tema é paixão.
E essa bola era objecto de desejo, veículo de sonhos.
Era jogada num campo, aos nossos olhos perfeito, em que as balizas não eram paralelas entre si.
Não eram sequer centradas no rectângulo de jogo.
Que, por sua vez, nem um rectângulo era.
Limitado, por um lado, pelas paredes do edifício, em forma de trapézio, e por outro por uma curva sebe de loureiros, que se interpunha entre nós e um desnível de mais de 2m.
Enorme abismo que nos separava do silvedo de onde frequentemente tínhamos que resgatar a preciosa bola.
Outras houve, efémeras tentativas de a destronar.
Lembro-me especialmente do dia em que o Jorge, vizinho e companheiro fiel desses jogos, surgiu com uma verdadeira bola “oficial”.
De couro, nº5, que seu pai, empregado de um café na Av Lourenço Peixinho em Aveiro, lhe trouxe.
Podia ler-se ainda “Beira-Mar” escrito sobre o couro.
Mas, apesar da sua perfeição, mesmo sabendo que foi usada em jogos da primeira divisão, não nos conquistou.
Era demasiado dura, ameaça constante para as janelas vizinhas, e pesada demais para nós, então com 6 ou 7 anos.
Além disso já conhecíamos de cor os saltos caprichosos da nossa bola.
Já jogávamos com a trajectória ligeiramente curva que tomava.
Era a nossa bola.
E a nossa bola não se trai, não se troca.
Campeonatos sem fim eram jogados naquele improvável “teatro dos sonhos”.
Que não trocaria por Highbury, Santiago Bernabeu ou Maracanã. Ou sequer pela Luz.
Porque são inexplicáveis as razões do amor absoluto.
Tornam tudo o resto relativo.
Geometria incluída.

Belo Horizonte, 28 de Agosto de 2009

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4 responses

  1. sininho

    Só de uma grande paixão se consegue escrever de uma forma tão apaixonada!
    O que outros diriam em duas linhas, tu criaste este belíssimo texto!
    bj

    Abril 15, 2010 às 10:38 pm

  2. E é mesmo uma grande paixão…

    Abril 17, 2010 às 12:45 am

  3. dufas

    “Porque são inexplicáveis as razões do amor absoluto.
    Tornam tudo o resto relativo.”
    Sucinto e belo.
    beijo!

    Outubro 3, 2011 às 5:45 pm

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