Rhodes

Confesso que não sou viajante organizado.
Não investigo de antemão os locais que visito.
Não planeio, não preparo ao pormenor as viagens que faço.
Rumar a uma qualquer cidade com o mínimo de balizamento constitui para mim um atractivo adicional.
Que confere à viagem um necessário grau de incerteza.
E que deixa terreno fértil para a surpresa.
Rhodes não foi excepção.
As referências que levava resumiam-se ao mítico colosso, e ao acordar de Corto Maltese, na cúpula de uma qualquer mesquita, ao iniciar a sua aventura rumo a Samarcanda, em busca de mais um tesouro, em busca de Rasputine.
Foi assim, com estas fantasiosas referências, que cheguei às margens do Egeu.
Fantasia que rapidamente se transformou em surpresa.
Surpreendente, Rhodes revelou ser uma cidade fascinante, uma cidade única.
Fascinante porque soube aproveitar a sua posição geográfica, o seu interesse estratégico, para se tornar única.
Por ali passaram Gregos, Romanos, Bizantinos, Genoveses, Venezianos, Sarracenos…Não foi por acaso que, vinda do Chipre, a Ordem Hospitalar de São João de Jerusalém ocupou a ilha em 1309, servindo-se dela como posto avançado no apoio aos cruzados rumo à Terra Santa.
Dessa presença chega-nos a impressionante fortificação da cidade e os notáveis Albergues.
É única a sensação de percorrer a Rua dos Cavaleiros, descobrindo os escudos dos diversos reinos Europeus.
É emocionante depararmo-nos com as Quinas cravadas na parede do Albergue de Espanha.
E é esmagador chegar ao Palácio do Grão-Mestre no topo desta Rua. Impressionante e dominador.
Palácio que, apesar da reconstrução de gosto e critério duvidoso levada a cabo pelos Italianos já no Sec.XX, mantém a sua aura de imponência incontestável, de autoridade divina.
Não será difícil de imaginar a afronta e inveja que a impressionante silhueta da cidade murada, uma das maiores da Europa, despertou na Turquia, do outro lado do estreito.
Afronta que perdurou por pouco mais de 200 anos, até que em 1522 os Turcos Otomanos, liderados por Suleiman o Magnífico, expulsaram os Cavaleiros de São João, que se viriam a estabelecer na ilha de Malta em 1530.
Com Suleiman, conhecido por ter propiciado grande desenvolvimento cultural e artístico do Império Otomano, chegam à cidade as inevitáveis Mesquitas com os elegantes Minaretes. Destaco a que lhe é dedicada, pela sua posição de domínio sobre a cidade, desafiando a autoridade simbólca do Palácio do Grão-Mestre.
Mas foi com surpresa e fascínio que descobri a pequena Mesquita, mas sobretudo o cemitério Turco de Murat Reis, já fora dos muros da cidade.
O actual estado de abandono, a que não será alheia a animosidade reinante entre Grécia e Turquia, por causa do diferendo Cipriota, contribui para adensar o ar misterioso, amaldiçoado do local.
Que, confesso, se tornou um dos meus locais favoritos…
Foi longa de 400 anos a presença Turca, terminando em 1912, com a conquista da cidade pelos Italianos.Começa aqui uma obsessão de 30 anos, responsável por grande parte das reconstruções que permitiram que a monumentalidade da cidade chegasse até aos dias de hoje.
Obsessão que fez do Palácio do Grão-Mestre residência de Verão para Mussolini e Victor Emanuel III.
Obsessão na reconstrução dos Albergues da Rua dos Cavaleiros.
Obsessão de quem supunha que a presença Italiana duraria certamente mais…
Finalmente, e após a II Guerra, Rhodes é integrada na República Grega, estatuto com que chega aos dias de hoje.
E chega com características únicas, com uma hospitaleira e descontraída população.
Fruto das múltiplas influências.
Fruto da necessidade de sobrevivência às variadas mudanças na ilha.
Mas fruto, também, de uma abertura natural ao exterior.
E foi essa abertura que a tornou, mais do que uma cidade Grega, mais do que uma cidade Turca, uma cidade universal.
Uma cidade do mundo.
Pedro Rui
(publicado originalmente em 21/01/2009)

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