Archive for Abril, 2010

Paris

1.
Nasci Benfiquista, como todos.
Não cresci, como alguns.
Afinal, na minha infância Caramulana, as opções resumiam-se ao vermelho ou ao verde-às-riscas. Azul, só para os mais excêntricos. E com a cruz-de-cristo ao peito.
Mantive-me vermelho, portanto.
Podia dizer que foi uma opção pensada e sensata. Não foi.
Podia dizer que foi pelo o Pietra, Humberto Coelho ou pelo Nené. Não foi.
Simplesmente foi…

2.
E a vida levou-me até Minas.
Até ao Mineirão. Até ao Independência.
Durante alguns anos mantive-me equidistante.
Ao Mineirão ia pelo feijão tropeiro. Ao Independência ia pelo Tio Mário.
Mas não era vida. Tinha que optar.
Aí o meu coração virou alvi-negro.
Afinal é o mítico Atlético o mais parecido com o Benfica do meu coração…

3.
Domingo é dia grande.
O Benfica pode ser campeão, no Dragão.
E o Atlético no Mineirão.
Estarei longe. na cidade-luz.
Nervoso, aguardando que me cheguem notícias por SMS.
Domingo à noite chegarei ao Porto de águia ao peito.
Rumarei para a Boavista, para me juntar à festa.
E daí para a Praça Sete…

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Florentino

Da minha primeira alcunha pouco vou dizer.
Impronunciável em público, deu-ma a Fernanda, que me criou.
É por ela que me chama, até hoje.
Depois veio a escola, e com ela a sucessão de epítetos.
Fui eleito delegado da turma, e fui Delgado. Devo-o ao Chico.
Assumi a baliza e passei a ser o Peres.
Referência ao Waldir Peres, goleiro do Escrete no inesquecível España’82.
O Chico, novamente.
Cheguei à Industrial de Matosinhos e era o Caramulo.
Ou Tondela para os mais fracos em geografia.
A idade adulta trouxe um longo interregno nas alcunhas.
Até ao facebook.
Aí, uma citação de Garcia Marquez, feita pelo Bouch trouxe Florentino Ariza à conversa.
Não sei se o devo ao próprio, se ao Joey ou à mania de Milady de colar rótulos a toda a gente, mas o certo é que a coisa pegou.
Passei a ser o Florentino ou Flor, para os amigos.
Despeitado, o Joey ainda tentou TaoTao.
E o Bouch, invejoso, sugeriu Beto.
Manteve-se Flor, felizmente.
Juntou-se à mais antiga de todas.
E à que mais me custa ouvir, hoje.
Pedrão, que era como o Nuno me chamava…

A revolução imperfeita

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Foi uma revolução imperfeita.
Com motivações imperfeitas.
Como tantas outras.
Mas foi única.
Feita por militares armados de boa-vontade.
Usando como senha uma bela canção.
Sem roteiro preciso.Ao sabor do vento.
Foi única por isso. E foi necessária.
Absolutamente imprescindível.
Foi uma revolução imperefeita.
Mas uma revolução é sempre um início.
O difícil é o que vem depois…

E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós


suspenso…

… em suspenso, esperando pelo resultado do jogo Naval-Braga…

Soprem os ventos de feição, no Cabo Mondego, e haverá festa.

Amanhã!


reservé

Não gosto de claques.
São sinónimo, regra geral, de violência gratuita.
Ou, na melhor das hipóteses, limitam-se a apoiar a equipa com alguns cânticos estéreis
Ou faixas pueris, tipo “Saviola, dá-me a tua camisola”.
Excepções há-as, felizmente.
Impressiona o “You’ll never walk alone” em Anfield.
Arrepia ouvir o estádio da Luz com 65.000 a cantar o “Ser Benfiquista”.
Mesmo o seu final ” …são papoilas saltitantes.”…
Mas, a certeza de que existe vida inteligente entre as claques, deu-ma a faixa desfraldada no jamor, antes de uma final Benfica-Porto. Que levou os adeptos do Porto, às vésperas da final da Champions com o Mónaco, a aplaudi-la, antes de se desfazerem em insultos instantes depois.
E confirmou-a uma nova faixa, que em pleno Estádio da Luz garantia que o Baía iria ao Euro… com o Mc Donalds.
Hibernou depois, essa veia humorística da claque Benfiquista.
Até à reserva do Marquês para a festa próxima.
E à “reserba” da Boavista.
Que se mantenha o humor.
O Benfica será campeão.
Chegue amanhã a confirmação e rumarei rapidamente à Boavista.
Se a expectativa se prolongar, comemorarei em Paris.
Seria bonito um reservé na torre Eiffel…


terreno sagrado

Futebol é mágico.
Transcendente, se jogado em terreno sagrado.
Que para uns pode ser Anfield Road. Mestalla ou San Siro. A Luz.
Para mim é o “viveiro“, campo de futebol do Caramulo.
Onde se chega por uma estrada de terra, serpenteando entre árvores.
Longe de tudo.
Que, graças à densa floresta que o rodeia, permite paz e silêncio.
Permite que só o futebol importe.
Como só o futebol deve importar nesse magnífico campo que me surgiu no caminho.
Ontem, quando fazia a mítica estrada da costa Norte da ilha da Madeira.
Em São Vicente, entalado entre o Atlântico e a escarpa característica da Ilha.
Ali só se ouve o silêncio.
E o futebol.
Não joguei lá. Ainda.
Certo é que levarei chuteiras e luvas na minha próxima viagem.
E esperarei que a magia me chame…


horta

Bendito o dia em vi a placa.
Placa que anunciava o programa “horta à porta“.
O dia em que me inscrevi no programa.
E a sorte que me reservou um talhão de 25m2.
Enorme.
O início, penoso, exigiu paciência.
Erros de planeamento, pecados de principiante.
Muito trabalho. Poucos resultados.
Mas eis a primeira primavera
E tudo muda.
As alfaces, finalmente as alfaces.
Os coentros, a salsa.
A rúcula e a pimenta malagueta.
Os oregãos. E os morangos.
Tomates, cebolas.
Olhar em volta e escolher os ingredientes da próxima salada.
Da próxima refeição.
Pensando como combinar alho francês com hortelã.
Ir à feira e planear mentalmente quantas alfaces plantar.
Quantos tomateiros.
Haverá ainda espaço para os pepinos?
Eis-me na segunda primavera.
Longe.
Escutando o Atlântico, zangado, lá fora.
Com saudade.
Do cheiro dos oregãos da minha horta…

(Funchal, 20/04/2010)


luso-brasileiro-qualquer-coisa

Nasci Tripeiro. Filho de Beirões.

A infância, essa foi no Caramulo.

E a adolescência em Matosinhos.

Um ano em Coimbra e Porto, novamente.

Aí, a Avenida dos Aliados cruza-se com a Afonso Pena.

Belo Horizonte chega à Invicta.

E eu a Minas.

Desde então sofro com as desgraças do Atlético, como vibro com as vitórias do Benfica.

Como tripas-à-moda-do-Porto, com saudade do feijão-tropeiro.

Subo à Serra do Curral esperando avistar a Foz do Douro.

Misturo cerveja Sagres com cachaça Perdizes.

Minha vida é esta: subir a Boavista e descer a Floresta…


sul

Albufeira.

O sol, o branco e o mar.

Um passeio matinal e a minha velhinha OLYMPUS.


o túnel das Antas

Pedi, tempos atrás, a volta de Pinto da Costa à vida pública, ao anedotário nacional.

Arrependo-me hoje. Se antes era desafiador ver Pinto da Costa na TV, hoje é deprimente.

A boçalidade mantém-a intacta. A cara deslavada também.

Mas soma-se-lhe agora a senilidade.

Que lhe tolda a pouca vergonha que ainda tinha. E a réstia de decência que aparentava em público.

Resta pouco, portanto. Resta o ridículo.

A razão, essa dou-a a Padre António Vieira, quando diz “que há casos em que a felicidade consiste, não em se achar o que se busca e deseja, senão em se não achar”.

Não ouso, por isso, formular novo desejo.

Apenas digo que não consigo deixar de pensar em quão magnífico e útil é o cone do silêncio…