Archive for Março, 2010

Luisão

Todos nós temos jogadores favoritos, jogadores do coração, as nossas paixões. E, não raras vezes, a adoração de que padecemos parece-nos desmesurada, desproporcionada em relação ao real valor do objecto do afecto, porque desconhecidas são as razões do coração. É assim com Luisão. É assim desde que chegou ao Benfica, vindo do odiado Cruzeiro de Belo Horizonte. E foram essas estranhas razões que me fizeram defendê-lo quando todos o criticaram, que me levaram a desculpá-lo quando falhou. Desculpei-o até quando se desentendeu em campo com Katsouranis, outro dos meus favoritos. Mas quando brilhou senti-me recompensado, orgulhoso quando se revelou imperial no centro da defesa encarnada, deleitado sempre que conseguiu um qualquer desarme impossível, em êxtase quando, usando a sua estatura e o sentido de oportunidade, marcou golos decisivos. Foi assim quando saltou autoritário sobre Ricardo, despertando a ira dos Sportinguistas, mas garantindo o último campeonato do Benfica. Foi assim quando, na pequena área desfeiteou Reina, abrindo as portas para Simão e Micolli brilharem,  nessa noite histórica em Anfield Road. E foi assim na Luz, quando deixou Eduardo preso ao chão e Domingos à beira de um ataque de nervos, decidindo, talvez, este campeonato a favor do Benfica. Longe vão os tempos em que poucos o queriam na Luz, porque hoje, se não é o central mais brilhante do plantel, é talvez o mais adorado. São certamente desconhecidas as razões do coração. Mas hoje parecem-me claras e justas.

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Dadá Maravilha

Foi sem esperar nada mais do que um prato de feijão tropeiro que entrei no Mineirão, naquela noite de Agosto.
O Atlético atravessava, sob o comando de Leão, uma fase deprimente, daquelas que só aos clubes míticos se permitem.
O jogo era um Atlético – Corinthians, que não prometia mais do que isso: um prato do lendário tropeirão que só se encontra nessa catedral do futebol Mineiro.
A companhia, meu cunhado Marcelo, Cruzeirense, Diniz e André, Corinthianos…
Começou bem a noite, com a ansiada iguaria e dois dedos de animada prosa.
Mas, já se sabe, entrar num estádio é como embarcar na enterprise rumo ao desconhecido.
E a certeza de que o que começava ali era uma memorável noite de veneração ao futebol, surgiu, pairando no ar que nem helicóptero, levitando feito beija-flor.
Dário José dos Santos, com microfone na mão flutuava sobre a multidão, escolhendo os eleitos para uma breve conversa.
Não terá sido a cruz de malta com as quinas que ostentava ao peito que o atraíu até mim.
Não. A estatura de ídolo confere a Dadá imunidade à gravidade e a símbolos terrenos.
Já o nº 10 nas minhas costas, quando associado ao nome de Rui Costa, tem pouco de terreno.
Tenha sido essa combinação mágica ou o simples acaso, Dadá Maravilha foi trazido até mim, para uma conversa de 30 segundos.
Que apenas me deu a certeza de que os magos do futebol existem de facto.
O jogo?
5-2 para o Galo, com direito a um emocionado abraço do companheiro da fila da frente por cada golo alvinegro.
Abraço a mim, a Marcelo, Diniz e André, que, resignados o aceitaram de braços abertos.
É assim. É terrritório mágico um estádio de futebol…
(11/07/2008)