Archive for Agosto, 2009

Bahia

Chegado ao alto de Tatuapara, percebo as razões que levaram Garcia d’Ávila a edificar a “torre singela de São Pedro de Rates”, base para o que viria a ser um imenso império.
A paisagem, deslumbrante e esmagadora, não deve ser consideravelmente diferente da presenciada pelo filho de Tomé de Sousa. Mata atlântica a perder de vista e o imenso mar da Bahia. Micos, bem-te-vis e urubus comparecem hoje, como nesse distante 1551.
E a pesada humidade Baiana quase nos permite vislumbrar, completa e majestosa, a que viria a ser chamada Casa da Torre em todo o seu esplendor.
A saga baiana de Garcia d’Ávila iniciara-se dois anos antes, quando chegara à Baía de Todos os Santos com Tomé de Sousa, sendo nomeado por este,Feitor e Almoxarife de Salvador.
A minha tinha começado há dois dias na mesma cidade.
As dificuldades da capital não são coisa nova.
Se no Sec. XVI o frágil equilíbrio com os índios e as pretensões Francesas tornavam a vida na cidade pouco segura, a pressão urbanística, a degradação evidente do centro e a invisível mas omnipresente violência, inibem incursões fora do limitado circuito turístico.
Circuito que no meu caso começou pelo edifício inaugurado em 1861 como Alfândega, hoje Mercado Modelo que exibe inúmeros artigos de artesanato para venda. Alberga também dois restaurantes onde me deleitei com um soberbo e muito baiano caruru com xinxim de galinha. Confortado o estômago, é hora de subir à parte alta da cidade, usando para tal o elevador Lacerda. Útil e elegante, com o aspecto art-deco conferido pela construção da segunda torre em 1930.
Na cidade velha, guiado através de ruas tipicamente coloniais, chega-se ao emblemático largo do Pelourinho, local central, coração da cidade, escolhido por Tomé de Sousa para centro da nova capital do Brasil.
A vista do casario em direcção à Igreja de Santa Bárbara dá-nos talvez a melhor imagem de como seria Salvador no passado.
Terminada a breve visita, é tempo de regressar ao nível do mar, tomando agora o plano Gonçalves, funicular datado de 1874 exemplarmente preservado que serve o propósito na perfeição.
Vista a capital, é tempo de rumar ao Norte, seguindo os passos de Garcia d’Ávila quando deixou Salvador para assumir a imensidão de terrra que Dom Sebastião concedeu ao primeiro Governador Geral do Brasil, seu protector ou mesmo pai, que lhas repassou.
Seguindo pela Estrada do Coco, o urbanismo selvático fica para trás, dando gradualmente lugar à serena paisagem da costa da Bahia.
E a praia do Forte não é excepção.
Ocupação discreta, urbanismo integrado, natureza envolvente e exuberante são características deste vilarejo.
E, claro, a proverbial tranquilidade baiana.
Com esta combinação, os dias fluem sem que se dê por isso.
Embalados pela quente água do Atlântico que banha as belas praias ladeadas pelos coqueiros.
Deslumbrados beleza das piscinas naturais formadas nos corais durante pela maré baixa.
Condimentado pelo omnipresente azeite de dendê que alegra as tradicionais moquecas e o divino bobó.
Surpreendidos pelos inúmeros e descontraídos surfistas de palmo-e-meio que se aventuram no mar, logo que terminam as aulas.
Sensibilizados pelo exemplar Projecto Tamar, de protecção às Tartarugas marinhas.
Foi esta combinação que me deu a certeza de estar finalmente na Bahia.
Na Bahia como a vejo.
Como Garcia d’Ávila a encontrou.
Senhora da Hora, 31 de Agosto de 2009
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